Enlear (v. transitivo)
1. Ligar, atar.
2. Entrelaçar.
3. Envolver; embaraçar, confundir.
4. Tornar perplexo.
5. [Figurado] Enlevar.
(v. pronominal)
6. Prender-se, enredar-se.
7. Perturbar-se; ficar indeciso e perplexo.
Tu não deixas, ai se tu deixasses. Mas venha-te, vem e vai, e lá se vai indo a minha compostura, fico sendo pessoa imóvel preenchida de comoção incontentável que se manifesta dentro, e porque me vem o teu corpo, num vaivém de doçura cúmplice, secreta embora pública, tenra, presunção impresumível, eu posso apenas supô-lo, o seu contato leve e fluente, influente, intenso, veemente, vem à mente, não, vem à pele, vem à alma, vem ao mundo dos sentidos, vem ao mundo dos amores, delicado toque imprevisível, como que me conta um segredo imperscrutável. Vem, porque eu espero toda vez, sem pensar que espero, mas plena da consciência de fazê-lo, indolente. Passiva de tal forma que escapo até à indulgência. Em timidez de pessoa pequena. Covardia que é apenas por eu estar perante ti tão desarmada, tão inábil, isenta de articulação. Que tenho tanto a dizer, uma coisa minha que eu te quero mostrar. Busco para mim o teu olhar, um olhar quente que acolhe, mas que ao mesmo tempo me parece intangível. Minha maior distância é esta entre tu e eu. Ou aquela entre o eu que tu vês e o eu que em mim habita pleno de desejo por ti. Embora estejas mesmo como que unificado ao meu corpo. Teus olhos fogem aos meus: minha debilidade faz que falhe a minha tentativa de trazê-los de volta, e o segredo morre no meio do caminho, incompleto, enquanto eu morro no ar, plenamente enleada. Tento, à maneira de minha fraqueza, estar à tua altura. Mas não escapo ao meu silêncio. E sou uma reclusão. Existo para o mundo na medida do seu toque. Não é que não tenha nada a te dizer: apenas me sinto interditada. Escapa-me a naturalidade. Disso não saberias tu, tão farto que és de espontaneidade serena e extremada. Tão teu que és, e tão intransponível. Eu como que não sei fazer parte. Eu não poderia corresponder-lhe, vagando como estou na incerteza expansiva. Faz-me mais crente cada gesto teu, e tanto mais cética. Mais esperançosa, e tanto mais desesperada. Que poder é este? Que idéia tens? Do pouco que me conheces, tu sustentas uma insistência ininterpretável, que me mantém sem me prender, que me deixa à beira de algo, mas só à beira, nem mais, nem menos, e sem que eu possa ver o que à frente se encontra. Um abismo que nem sei se me espera. Uma ilusão, talvez. Porque de abismos entendo, a eles me prendo; sempre à beira, no receio de perscrutar o abaixo. Até que me atiro com uma súbita confiança que parece mais uma desistência. O que esperar de ti? Sei que me farás sentir-me grande tola, é isto sempre. Súbito virás a abraçar-me por trás com tal afeto, teu queixo um peso bem-vindo sobre meu ombro, tua face ao lado da minha, teu braço envolvendo a minha cintura, e eu perderei toda noção corpórea de minha existência. Ou súbito terás de ir-te embora, súbito um desconhecido, sem mais palavra, sem mais sugerir, e sem dar notícia, e eu perderei o elo que tentava construir contigo no meio do caminho. Eu sou a partida e a lembrança. Eu sou uma idéia, a idéia que tens de mim, para mim um total mistério. O que essa idéia fará comigo? Eu sou o tamanho do que transmites, sem saberes do efeito. Eu sou tua mão firme afagando a minha. Eu sou a tua insensibilidade. E mais nada. (01.05.10)
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