quinta-feira, 7 de março de 2013

Me dito

Existe essa forma imprestável de saudade que se chama nem ter o que te dizer. Se calha, nem memória me sobra: sou só resíduo, e no residual deste cultivo sei que só me serve calar. Vou ali para um canto, encolho, rezo um terço da onda perdida, rezo a ilha em que fui feita, desenhada, e esses contornos que não me saem da pele feito traço de areia, que os movimentos temporais não fazem apagar. E é antitético, porque o que fica me é tão ínfimo, tão minúcia, e eu pequena, sumidouro neste grave tempestivo que é deixar as ondas me levarem de ti, lavarem-me o teu, que o meu é meu, e eu continuo, tua, esgarço, regaço, baía de medos sutilmente calculados para precipitar, infalivelmente, a chuva dos meus olhos a cada reação. Que faca é esta que me tolhe a ponta, quente, ardendo por debaixo da pele, e eu me desfazendo pelas beiradas como se nem fosse sólida. Eu, raiz, indemovível? Espuma de nada se desoçobrando por uns cantos aí, que ninguém vê, de que nem vale a pena ouvir falar. Tendo visto, inteira, que as quedas d'água fragmentadas não me tiram nem me dão, fazem dança e cortejo, fazem dilúvio, fazem incêndio, e silenciam. Buraco de concha e os ouvidos retorcidos. Fica, que o anseio se imiscui na memória, feito onda. Ondulam em mim umas reticências, umas resiliências das mais ingratas; eu sempre pronta a deixar, porque sei que hei de carregar comigo. Ondula dentro de mim cada despedida como se não fora eu a ir comigo, mas o contrário: adeus a mim, agora parto a carregar o ido. Ser, para dar. Me gasto, e vejo que: me tiram tudo, não fico nada, calam-me, que arte de ser muda por ser inteira a percuciência dos sons, eu que feita de palavras só faço impressões varridas de areia pelos mares da minha meditação. Vazios plenos que me saem pelos olhos ao saber do iluminado: que não basto, a minha claridade me condena, antecipa, torce o fluxo d'água. Para alcançar um estado tal de plenitude que se satisfaça em mim. Retiro-me de tudo a ver que nada há que me contenha. Que raio de sol dos mais solitários. Que água nos olhos, na garganta, por toda parte a que eu me torne: são mundos inteiros da fluidez que, no entanto, não me é. Que forma imprestável de amar. Não eu, mas se as ondas dizem: é porque te amo.

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