sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Uma saga de sol

Escrito em outubro 

E a que se fez criança, tece a rosa.
E criança também, uma mulher
Contida de silêncio e de memória,
Espera o plenilúnio e elabora
Uma saga de sol.
Hilda Hilst

Arrojar
verbo transitivo 1. Levar de rojo. 2. Arremessar.
verbo pronominal 3. Atrever-se. 4. Arriscar-se. 5. Precipitar-se. 6. Lançar-se.

Os dias têm sido de fervura a fio. Tantos, mais do que posso contar nas mãos. E o meu interior tem sido de umidade. Uma íntima aquarela. Aquela saga de sol que estava a demorar. Umas veias vibrantes, meu esguio derretido. Caiu do céu. Mesmo: eu não busquei em parte alguma que não fosse dentro de mim. Eu estava olhando tão fundo dentro que nem dei por conta em que rua virei pra me deparar com isto, de agora. Eu estive tanto tempo, anos a fio, sob a contundência de uma sombra. Pareceu mais com percorrer uma eterna avenida, vazia, labiríntica, clausura. Menos com escalar uma montanha. Assim que é susto a panorâmica que sinto aos meus pés agora. Topo de sensações. E flor da pele - revivida. Eu sei que penei e regozijei. Estaria simplesmente plácida, não fosse aquela pontinha de vertigem, e o hábito da ansiedade do porvir (adivinho potências). Por um instante eu acreditei que subi rápido demais. Mas a avenida custou anos, custou pele, neurônios, manchas e estrias; tanto leite derramado, livros não lidos e movimentos contidos. Interrupções. Tanto equilíbrio entre sóis e sombras e quatro paredes de duas vozes estridentes, urgentes, humanas, e a minha interna, do passado, sequestrada, lavagem cerebral. É tanta vertigem de me ser. Me falta tempo. Sinto a ânsia de dançar aos pés deste precipício, e é quando vejo as raízes se esgueirando pela planície. É um lugar totalmente novo, com sabor de reencontro. Reencontro de mim, com uma força. Autêntica. Sabida. Suave ainda... Flertando com um quê de silêncio. Mas sem medir as palavras? O que der na telha. O que falar de profundeza. Eu tomei cada passo para respirar a paisagem de agora. Em que estar sozinha, inteira, em pé - consiste em glória. Em que nada me evoca a necessidade de passado. Só porque estou aqui posso abrir asas. Sinto as mãos que pareciam também asas como as minhas - a umidade... Arde, é vertigem. Sinto um corpo e uma febre. Deixo o incessante pensar... Não consigo parar de sentir. Esqueço até o peso do meu corpo no instante em que começa a pingar. Vai ter chuva. Em ondas, e ondas mais. De cheiro, pele e suor, e tudo que eu amei em mim para chegar a este momento sem o peso dos dias. Estou delirando. "Porque há desejo em mim, tudo é cintilância...". Já não lembrava como era ser livre... Suculento... Morno. Atrito. Arrepios. Eletricidade. O topo... Com a clareza de ver. A febre de viver, atropeladamente. E ensaio alçar vôo. Porque sinto em cada artéria a iminência de dançar. Meu corpo está tão leve que acuso olhar para baixo: só posso estar acima do chão. Dando piruetas. Na ponta dos pés. Quero agora ser toda de uma vez a mulher em mim, outrora tolhida. A liberdade, não sem t(r)emores: mas nunca foi tão natural ocupar este corpo, pôr a uso e gasto, aquele que não me tira, só me eleva, expande. Extático, epidérmico: adivinhação, prenúncio de movimento, que desencadeia a espiral de sensações daquilo que escorre infinito. Energia. 

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