Lembro que te vi, meio sem me importar de te ver, meio sem me lembrar de que um dia eu te quis, meio que demais. Quase não dei caso às tuas palavras abafadas pela música alta de festa. Foi como reencontrar um quase amigo distante. Parece irônico que hoje me sejam tão impressivas quaisquer palavras tuas. E que eu esteja aqui a repassá-las, em hábito de excomunhão quase diária, meu masoquismo contra o qual luto a duras penas ao longo do dia, e ao qual me rendo em contorcionismo de desilusão nas breves horas da madrugada. Fácil, como sempre devo ter sido para ti. Silenciosa, quase obediente. Abaixo a cabeça. Veio-te com tal assunto sobre antigas namoradas, em verdade um pretexto para falar de tua solteirice. "O relacionamento é como uma noite de bebedeira" – começaste, não com estas palavras, mas com o sentido –, "e o seu fim é como a ressaca. Toda vez, repete-se o mesmo: que não irei fazê-lo de novo, não hei de passar por isto de novo. Mas mal passa o tempo, e logo fazemos tudo outra vez. Bebemos de novo uma outra pessoa." Eu, pasma de tanto concordar, apenas fiz que sim, lembrando o motivo mesmo de ter-te conhecido, uma filosofia milenar que temos em comum. No que acrescentaste: "Bem... Eu não bebo." E as graças recaíram-se na garrafa d’água quase vazia repousando em tua mão. Deste-me a outra, em carinho firme, e foste embora, para a tua vida afora à qual nunca eu fora convidada. Fui-me também, e livrei-me de ti, com tal simplicidade como nunca outrora. Mas por pouco... Por que voltaste? Por que eu? Por que vieste? Por que hoje? Por que agora? Por que assim? Eu não sou qualquer uma. E, mais importantemente, tu não és qualquer um. Nós não somos qualquer coisa. Por que me vieste beber, só para cuspir o todo fora? Só para dizer: não bebo, mas te quero provar? Pior: quero-te dar o gosto do que é beber-me, só para lhe tirar-me depois? Só para me dar mais sede? Que antes eu vivia em inconsciência da sede que podia habitar-me. Que antes a luz e a lua e o fogo e o sol e o ar e a terra por onde caminho atando minhas mãos me teriam todos bastado sem a tua água... Afogamento. Uma embriaguez muito particular, que me deixa hiperconsciente e lúcida de tudo. Agora vejo que não me chego a surpreender em nada. O que mais poderia esperar de ti? O que mais, dado todo o que se tem em comum aqui? Existe um lugar de nosso encontro, tão secreto que não se revela nem a ti. Lá se refugiam todos estes pedaços e rastros, detalhes soltos, amarrados em nada, palavras e toques, olhares mil, tudo que pude roubar de ti sem que te desses por violado! Quando em verdade eu sofria a violência por estar assim tão invadida de desejos de ti, de espalhar-me por todos os teus cantos e só ver o que é que fazias... Ação e reação. Desejo de deixar-me ser por ti tão possuída em todos os meus cantos corpóreos como o fosse em todos de minha mente lúcida, perceptiva, e todos de minhas terminações nervosas vibrando por ti... Aqui me dispo, aqui disponho minha pele para que tu a uses, como bem a quiseres. Eu sei que eu quereria enterrar-me por debaixo da tua, e ali quedar, plácida. Apenas um bamm bamm bamm que eu talvez não deveria ter-te mostrado. Mas meu coração acabaria falando por si só, e eu fiz apenas um favor ou mesmo uma indulgência à minha extrema sinceridade – que eu tanto tentei esconder de ti – ao permitir-lhe uma deixa voluntariamente. Ai, impetuosidade. Resolvi ser um pouco como tu, como tu na hora mesma encorajaste-me a ser, e eis que perco tudo, sob o mesmo céu de sempre. Tu me deste uma esperança que se tornou desapontamento. Isto algum dia foi um bom começo. Algum dia começarei a começar de novo, sem esperanças de começar-te. Ainda que em mim tu nunca tenhas findado. Estou definhando até com certa graça. Perante o luar. E chega de falar de luas, que já não me posso dar ao luxo de amante, se é que um dia jamais houvesse podido!
Espontânea, autêntica, sublime...
ResponderExcluirUm ótimo final de semana para você!