Pergunte "como?", não "por quê?". Pergunto a mim mesma como cheguei aqui, procuro enxergar a densa teia de contingências emaranhadas, uma após a outra, uma através da outra, pelas quais teci meu caminho, procuro dar-lhes sentido, nome e pacificação. Procuro qualquer forma de entendê-las, com a curiosidade gratuita e descompromissada que eu deveria ter. Procuro abrir mão de ser tão breve, cautelosa, pugnaz e defensiva. Com o máximo de cautela que eu for capaz de conjurar. Parecerá estranho, mas nunca me senti tão clara em mim mesma. Deixe uma mente aberta, escancarada, pura como a minha, à mercê do escuro, à mercê da solidão, e veja como eu prospero. Veja como tudo é um bom começo. A beleza de poder sempre começar, reconstruir, reparar em si mesmo o que quer que seja. Os outros, não alcanço. Os outros, não atinjo. Os outros, não ajo. Os outros, desconheço. Os outros, eximição aguda. Já não sou os outros. Agora sou eu. Já não ouço os outros. Que têm eles a me dizer? Que sabem eles de mim? Que poder têm, que eu não tenha e tanto mais? Já não preciso de ninguém, pois ninguém me dá nada. E o que eu preciso, há tanto tempo não tenho que já não me lembro de querer. Talvez nem me lembre do que seja. E o que eu desejo, há tanto tempo me negam que já não posso aceitar. E o que eu quis, o que pensei ou agi, agora me parece tão distante da alma, que talvez eu tenha incorporado todos os meus eus de uma vez e desembocado numa coisa outra que é tudo que eu vivi e tudo que eu vou viver. E tudo que me foi interditado. Tudo que eu quero é isto, esta claridade que tenho agora. Estive caminhando eternamente para chegar aqui, tão nervosa por traçar meu próprio caminho que mesmo depois de ter chegado não cessei os passos. Vaguei em círculos por outra eternidade, com a nervosidade de sempre, atada a um abismo de minha criação. Eis que se faz dia, e me vejo chegada, e paro a olhar-me, atrás e à volta. Como? Agora é olhar pra frente. Eu sei que cheguei, porque não há ninguém aqui. Sozinha como sempre fui. E confiar em mim é o bastante. Sempre foi meu único refúgio, e sempre será. Sou minha única companhia. Já não me descaminho, eu me sou o norte. O que eu tenho precisa ser tudo que eu ouse querer. Falhas adoradas. Porque são minhas, e eu sou meu deus. Quem poderia me ajudar senão eu mesma? A quem poderia eu recorrer? A vida é isso.
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