Caminhando desavisada com esses
meus braços abertos demais, caminhando depressa demais, deparando-me com as
ironias do acaso que eu não deveria perceber, olhando tudo e respondendo às
perguntas, intuitivamente tentando fazê-las, atentamente guardando demais as
respostas, e perdendo as palavras, encontrando o perigo nos olhares, tropeçando
e errando o caminho também, demorando-me nas gentilezas que não deveriam me
incomodar. Parece uma história de falhas. Eu sou uma história de rejeição. Porque eu
preciso rejeitar meu ímpeto na tentativa de encontrar o bom senso em algum
lugar dessa rotina de impressionabilidade. Fácil, suscetível. Preciso rejeitar
essa natureza que não me traz frutos. Preciso evitar encontrar-me naquele tipo
abominável e impuro de posição, aquela posição cativa, aquele sinal de perigo.
Sujeitar-se e rejeitar-se andam lado a lado: porque eu temo estar sujeita,
então rejeito aquilo que me diz a intuição sobre sentir; porque se sinto e
acato, serei sujeitada, logo rejeitada e obrigada a rejeitar o que fizera. Sobreviver
é matar-se. Não há solução aparente para meu problema de ser. O não ser é fazer
a rejeição primeira e não sentir. Repita comigo: é só um homem. Só uma pessoa
cheia de imperfeições, como qualquer outra. Outras já foram por ele envolvidas,
e outras mais serão. (Quem entenderia é quem não deve saber.) Nada acontecerá,
porque nada acontece. O sentimento existe, inventado, e não encontra
correspondência no mundo dos fatos. Seu significado não importa porque só
existe em mim. Compartilhá-lo é instanciar sua realidade, e admitir a cadeia de
falhas que invariavelmente vem a seguir. Rejeitaria, talvez, ser, só para que
pudesse, talvez, ser alguém que importasse a ele. E eu vi acontecer em silêncio
desesperado, os detalhes todos se construindo feito pecado no interior da minha
alma, ameaçando revelar-se por algum sentido contagiado, o impuro que me
percorre em pensamentos perigosos. Não o quero desejar. Mal suporto o saber
tê-lo deixado ganhar tamanha importância de pensamento que tenha conquistado
este lugar muito concreto no meu mundo de palavras. Não é que eu não entenda o
que ela viu. É porque entendo. Mais até, vejo o mesmo. Não suporto o quanto sei
que não há nada, não suporto o quanto gostaria que houvesse. Foi um acidente.
Afundei nas profundezas de meus sentidos falhos, pouco fiáveis, meus ímpetos
infundados, minha ameaça a mim mesma. A marca na pele me grita: não tenha
grandes idéias. Pois sim. Mais um dia de rejeições.
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