domingo, 9 de março de 2014

O amor sobrevive

Que significam os livros que perdi? Se, após seis longos anos, o resíduo na estante é a única verdade que sei: a de haver-te perdido. Os livros são o mesmo nada. O som que permanece é um suspiro engolido. As palavras que enchem os olhos, a boca que perfurava, aquelas do fracasso, da tragédia. Se isto me foge, que são as coisas? Se isto pode perder-se. Gostaria muito de que fosses. Adoraria ver-te partir, o mais que me visse, depois, a respirar da tua ausência, como se nela houvesse vida. Para que, ao fim e ao cabo, te pudesse sentir voltar, ávido de saudade. Seis dias, não anos, e teria ouvido também do amor, e de novo, como se fosse verdade. Vibrou e escorreu dos olhos, das mãos, coisas minhas e tuas, ensejo das noites separados. E como fazer da rotina algo díspar? Porque és o senhor de mim. Deus, não me obrigai a mais nada. Livro algum atravessa o abismo que é estar sem ele. Livro algum me separa deste escuro. Para nunca compartilhar o escuro daqueles olhos, que desafiam para fora da vida. A doçura mais ímpar de ser cruel. Na estante, tudo é nada. O quarto não significa, e atravessa para hábitos de mais além. As superfícies só não são mais amplas que a ausência de tudo. Não pensaria em coisa alguma, espaço algum que preenchesse essa perda; as coisas parecem querer habitar apenas o âmbito da vida compartilhada. Por que cultivar a troco de nada? Investir em reprodução de sensações agonizantes? Coisa alguma é testemunha de que eu tenha vivido.

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