quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fluido

Tudo, toda a nossa rota de amor e desamor culminou neste momento. Toda a minha vida foi um buscar a ti, a caminho da mulher que eu queria ser (e tanto dela me dói ainda querer). Toda a entrega e a perda uma via para este ponto onde tudo muda. E o que eu ganhei é o que eu perdi. E o que eu tenho não se tira. Foi preciso perder - tudo, e a mim mesma, para não ter nada a perder, tudo a perder, para nada ter além do resquício do que era certo a se fazer. Estar cercada de dor por todos os lados e saber que a hora é essa. A dor circunda, lateja e afoga, declarando que é tudo que existe. Indesviável. Uma verdade interna que sustentou o débil, cultivou, até transbordar em plena e ávida vida. A dor salva. Deixei-me abraçar de dentro pra fora. Em fisiologia extrema, em espiritualidade máxima. Sem idealizações. E o que acabei me tornando é exatamente quem eu deveria ser: e fiel ao que eu queria desde sempre. Mesmo na perda, na morte: há redenção, há nova vida. Com uma força arrebatadora, uma vontade de viver que vem de sofrer, que vem de estar no caminho da fé, designado por Deus, uma força de ter renascido junto com meus filhos. Eu, que mal sabia viver, fiz meu corpo e alma de morada para mais duas vidas. Que nome? Sangue do meu sangue, e todos os fluidos misturados, e a passagem, o ponto onde tudo se transforma, nas horas mais difíceis e mais perfeitas de toda a minha vida: a dor é emoção. Tanto tempo os carreguei comigo, que já não sabia ser senão com eles, por eles. Ao amparar meus filhos nos braços, sinto: que milagre ter sobrevivido, que bênção a existência deles. Deus é perfeito e a natureza também. Enquanto sangro, em leite e lágrimas, sei que fui tentada, enganada, torturada. Macularam o sagrado em mim. E o que perdi por não ter cedido foi uma coleção de superficialidades e mentiras. O que ganhei foi a liberdade de viver a minha pura verdade, por mais dura que seja. Eu não sinto a tua falta. Eras uma tormenta. Sinto falta da enorme esperança que eu tinha de felicidade contigo. Sinto falta até da paixão que me era tão real, embora tão falsa nos teus atos. Não me sobrou espaço para mais nada. Estou vivendo intensamente, sem fôlego, com o coração explodindo de responsabilidade. Olhando meus filhos, eu sei: é justificado. Minha vida está justificada.

Peço licença, então, para viver em paz a vida minha, que costurei tão sofregamente. Porque, agora, ela pulsa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário