É ele. Ele habita, seu corpo ocupa um espaço no mundo e ressoa na minha alma em abundância. É ele, a mesma pele e a mesma displicência, o mesmo garbo distraído que transbordava desde os sete de setembro, provavelmente desde os vinte e quatro de novembro todos. É ele, mas a voz é outra; é a voz de ele para outros, porque é agora que eu percebo que eu sou outra também. E essa gravidade toda ressoa tão dentro que tudo que eu disser daqui pra frente, após ouvir sua voz, será cerceado. Medido, mas atrapalhado. Desconcertado. E respondido em automático como a conversar na descontração com uma pessoa qualquer. Mas não. É ele. Seis meses, dez meses, três anos, vinte e três ou quanto for. Quantas eternidades eu precisar para tirá-lo de dentro de mim. Para não ser mastigada viva. Para não ter meu espaço, tão delicadamente construído, feito em pedacinhos. Para não ouvir perguntas e ter respostas - coisa de conversa racional. Para não sentir em mim, de repente, algo de frágil que não vinha há meses: algo de medo. Algo de ser julgada por ele - que é tão diverso de ser julgada por todos. Tão mais pungente. E de ver a distância que impera em se manter. Quem é ele? É ele, mas não é. É esta casa, mas não é. Sou eu, mas não sou. São meus filhos. São os filhos dele. Ele, que nada tem a ver com isto; ele, que tudo tem. Uma jornada infinita de criação de vida, resumida em minutos. Sinto-me diminuída. Sinto-me a anos-luz de tudo e todos: eu era isso? Eu era ele, ele era comigo, essa era a vida? E esta vida de agora, que é aos olhos dele? Que efeito ele tem? E a vida dele: que eu não quero, não posso, não aceito saber. Não quero saber de nada. Aqui estou no limite de tudo que poderia suportar. E a coisa mais bela era poder ficar em silêncio. Mas ele exige. E o amor tira mais que dá - sempre. Ele fere. E a palavra que eu necessitava ouvir - porque tão tola - nunca veio. Os sentimentos seguem obscuros, as mãos atadas e o olhar não sustentado. O coração que não sangrou porque há tanto tempo petrificado. E eu amolecendo neste mundo inocente, tão completamente avesso a ele, a tudo de antes, tão segregado, intransmissível, irreconciliável. E ele aqui à beira. E eu tão outra que não sei me portar. Mas desmontando com a visão dele. Por quê? Depois de tanto, tanto mais e tão maior. Ainda ser diluída e soprada ao vento. Ainda ser um nada no meio desse mundo dele. Ser deixada ao mundo meu, tão vasto, tão agudo, tão forte, que não entendo: por que tão ferida por ele? Ainda. Como se sacrificada. Vivendo intensa o amor maior do mundo, mas com esta sombra. Por que, meu Deus? Nada poderá ser simples. Eu pensei ser livre. Mas ele irrompe, subtrai. Feridas fundas, eternas. Nas entranhas, no útero. Nos meus dedos das mãos, que arderam para tocar. Por quê? Tocá-lo? Quem? Em reflexo, automático? Porque estive fora do mundo, e agora em confronto o mundo hoje se choca com o de antes. Que esta frase nunca, nunca se complete. Porque, mesmo arisca, sou mansa: as raivas entaladas e eu poupando, poupando, consentindo, embora violada? Tola ovelha enrascada. Como perdoar alguém que nunca pediu perdão?
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