domingo, 5 de fevereiro de 2012

Chuva interior

Sinto uma frieza interior que é frieza de ventania, como se chovesse também dentro de mim, enquanto meus olhos e ouvidos testemunham que além destas paredes chove, tanto e tão surpreendentemente, contaminando sem falta cada dia da semana insólita, mas é epidemia de redenção à qual ninguém pode escapar: se um ousa na tentativa, fecha-se em quarto escuro e ignora a alto custo humano o murmurar da água contra toda superfície, e é um desperdício de oportunidade de compactuar com a íntima verdade da ordem natural da vida, e é um embalo de ninar, uma serenidade petulante de meteorologia que invade o estado de espírito até mesmo do mais cético, fazendo enlevar etereamente o mais romântico. E eu estou envolvida. Chove como se todos chorassem. Há idéia mais simplória? Fechando os olhos posso ouvi-los ainda, sentir na pele a vibração dos ecos da força da natureza em minha alma, e em minha tenra imaginação que continua morna independente do tempo conjuro o vislumbre da face rara dos poucos a quem dou amor, meu amor meio desperdiçado. Sinto-os sem vê-los. Será que riem? Será que dormem? É tempo bom para se dormir, e seria bem-vindo o conforto da certeza de que muitos deles estivessem plácidos no calor de suas camas, assim livres da inquietude da consciência, livres da imposição da lucidez deveras contrastante em relação ao tal desaguar onírico e quase violento que se imposta janela afora. Será que sabem, ou supõem sequer? Desamparo que estou sendo, um que não pareço capaz de reverter em minha conta. Mas a chuva não é minha responsabilidade. Sinto na chuva uma cumplicidade nociva, porque ela me entende e ainda me fere. Mas a ferida não é do fato de ela tanto me compreender. É que a chuva é meio curiosa, influindo em minha essência de pessoa sob esforço nenhum, subjugando todo o curso de vida humano a seu favor, tornando mais árdua e impossível minha caminhada sobre meus próprios pés, impondo-me duros tropeços e uma subida escorregadia, quase como se adivinhasse minha dúvida pungente, que é insegurança extrema, e, partindo disso, risse da minha falibilidade. Que a chuva é infalível. O tempo é fora da ambição humana. E a minha solidão é fora da minha ambição de indivíduo falível. Encontra-se sob o meu jugo apenas a espontaneidade de fechar-me em quarto escuro e ater-me ao som epidérmico da chuva contra toda superfície, sem dedicar a ele qualquer atenção, mas sim secretamente concentrada na perda de mim mesma, a perda vagarosa e inelutável, meu luto próprio do mais nublado possível. (2010)

Nenhum comentário:

Postar um comentário