A verdade é que eu preciso ser sozinha. Eu não dou conta do fardo de dar-me tanto a alguém, pois não me entendo por partilhável, não me tenho por coisa que se pode compreender inteiramente, não sou absorvível, sou impenetrável e como que impermeável, embora absorva tudo que veja, tome tudo para mim num aspirar de alma, e em trabalho íntimo avalie a relevância do captado, a proporção do compreendido, perdas e danos, uns poucos ganhos, quando logram alcançar uma mínima expressividade. E a entender parcialmente e com parcimônia é preferível não entender nada, assumindo uma ignorância que não compromete, de natureza libertadora, não opressiva. Quem se aventura a entender um pouco que seja, no entanto, eventualmente se dá por si atado a um caminho sem volta. Porque principiar a entender é propor a si um desafio e aceitar o pré-fracasso, incumbindo-se da responsabilidade pelo todo. Eu não quero a responsabilidade de ser entendida, pois é muito dura. Eu como que não tolero ser dos outros, porque para sê-lo preciso primeiro abdicar de ser minha, e ao fazê-lo perco o meu ser. Sou matéria inconsciente. De início eu faço graça, faço que seja mansa e quase creio ter-me deixado envolver por completo no encantamento, tanto que aquele que vê me tem por crente, pusilânime, e faço mais, ponho-me em segundo plano, que fique a dor do enfrentamento para mais tarde, que venha mais negação, que meu fluxo de consciência seja ofuscado e comprometido pelo excesso de companhia e doação, que eu perca a energia do descobrimento e me contente com aquilo que não é meu desejo, nem o que preciso, mas sim a superfície fraca e opressora de um outro ser vazio, ornado por um afeto sincero que me ofende. O afeto que exige de mim que eu me abra e me doe é uma doce violência inaceitável, e afeto é inegável por excelência de definição, de forma que eu, cativa na contradição, dôo-me e perco-me, miro ao longe o caminho que leva até mim, mas tenho arrancadas de mim as forças para tomá-lo. Fica a consciência da contemplação. A tal altura, posso até ser usada a fim de que os outros sejam em mim o pior de si mesmos. À noite me dispo da ofensa e da tola infundada esperança – em mim mesma? – para dormir um sono desperto, névoa lúcida de ilusão e insegurança, somente para acordar mais cansada. Sou lucidez exaurida. Pela manhã retomo o hábito inalienável de tomar conta do mundo. Cuido com cuidado, em extrema dolência zelosa, sem ansiedade. Mas é dolência serena que nada exige. Não escapo, contudo, à minha zona de proteção, zona de insegurança, que sou uma força vulnerável. Atenho-me à mínima distância, curta o suficiente para que eu seja vista e extensa o bastante para que não se possa alcançar-me. Permaneço no limiar da tangibilidade. Um passo a frente ou atrás e será a violação de um direito inviolável, meu direito de pessoa. Nesse ponto, vem do tempo apenas uma percepção tão última e tão íntima que nem mesmo eu tenho consciência dela antes que esteja plenamente amadurecida em mim. Um tempo me traz a intuição inexprimível da necessidade de uma força dentro de mim de crescer, tanto a ponto de requerer expandir-se para além dos limites do que sou. Ninguém vê. Pura compreensão interna se apoderando de mim. Na culminância do suportável, logo me vem a suspeita da iminência da revelação, aquela que me vai impor a recuperação da plena consciência, finalmente com voz para que eu ouça, dando forma a uma constatação que, todavia, sempre havia existido adormecida em meu ser, silenciada pela projeção grave de minha incoerência ao sustentar uma doação tão ofensiva. O ato da doação que viola o objeto a ser doado. E eu, com toda a força original de ser exclusivo recuperada, imponho finalmente a libertação a mim mesma, a recepção em mim mesma do eu, uma volta de alívio ao lar após conflitante jornada. Enquanto eu não for minha não há aprendizagem. A recém-descoberta aflição advinda de eu me ter doado sem ter aprendido dói tanto que se manifesta como ressentimento desorientado. Apesar de heróica, vejo-me como vilã de mim mesma. E não aceito a compreensão tardia. E não compreendo que eu tenha permitido ir tão longe e percuciente a violação de mim mesma. Como acordar frente a um espaço aberto, vasto e arejado, límpido, tão absurdamente claro, que é de uma vacuidade impossível; eu estou parada perante o todo, e isso para mim é ser nada, sem passado, sem presente, sem futuro, tenho apenas o vazio da existência de tudo e do fato de eu estar ali contida e incontentável, embora passiva. Dor de ser tão minha: queria ser menos. Com tão pouco para ser, eu me sou além da conta. Busco sem razão a redenção do meu ser em ser um pouco dos outros, em ser um pouco para os outros. Mas acabo querendo ser os outros ou esperando que eles requeiram de mim a doação que em verdade tanto temo, e quando falho no julgamento descubro-me sozinha de novo, com espaço aberto à frente e desejando olhar para trás. Com grande angústia entendo que o momento de espaço aberto à frente anula o espaço aberto ou fechado que supostamente havia atrás, e o olhar para trás implica negação da força atual e conseqüente acolhimento de uma fraqueza não de todo extinta, a qual conservara para si uma antiga humilhação. Em ecos de descoberta, nova humilhação provém da condição de ter o espaço aberto à frente e não dar a favor dele os passos. Como acordar, que é o meu inferno. Com muito pesar me surpreendo resistindo à tentação do sono ao último segundo, a troco e à espera de nada, a mente vazia de inutilidade diária, tão somente na esperança de despertar tanto mais tarde quanto mais tarde eu adormeça, perdendo assim o dia que me ignora, dias que passam não sendo meus. Que doçura é dar a si o sono quando se bem entende. Privo-me do sono a fim de que, quando o queira, ele me venha, dando-se a mim com sensualidade de amante. O sono é a minha única conquista. Se acordo, é realmente um erro. Espaço aberto e inútil à minha frente, e não o quero. Não quereria também o espaço fechado. Meu ideal é sem espaço algum. O meu desejo é tão interior que não sei pertencer ao mundo. Tão minha sou que, quando percebo que não me entendo, afundo mais no desespero do despropósito, recorrendo ao entendimento alheio. Então no espaço aberto, isenta da capacidade de reunir a intenção de dar meus passos, fico a perscrutá-lo, quieta, aparentando placidez, já que é preferível aceitar a negar o que não pode ser evitado. Mas meu espaço aberto é sem manhã, ornado com uma chuva incompreensível que faz o dia invadir-se por uma rara luz opaca, obsequiosa, paciente, do tipo que não exige, não ordena, não propõe, nem invade. Meu tempo assume um caráter versátil, benévolo, comiserativo. Meu espaço é tão estranho porque, antes que eu me situe no espaço incomum, cessa a chuva sagrada e tudo retorna à comum irradiação. Tudo brilha da pele para fora, tudo arde em dureza gélida e obscura da pele para dentro. Meu cansaço oscila como o tempo perante meus olhos, como a minha vontade pelos outros. Cansaço do meu espaço. Noite vem e eu sou sozinha, como deve ser. Por que eu não durmo? Sendo que sou das manhãs? Mas sou também da noite, contudo, só da noite que começa quando eu não mais tenho consciência de alguém desperto, e sinto na pele a vida morna e inofensiva de todos dormindo, em justiça biológica. E eu me sinto mais dona do mundo quando sou a única lucidez no mundo, eu que não quero ser dona de mundo algum, nem dona de nada além do meu próprio poder de sentir e enxergar. Eu sinto o mundo na paz noturna. Mas ai, manhãs: nelas sou mais digna, nelas sou mais honesta. Ainda que não haja esperança acerca do dia, na manhã eu sou pura: punge a dor do despertar, mas logo a aceito, que já o disse, que pelo menos na manhã existe qualquer coisa de resolução, alguma fraca clareza, alguma força insonte, alguma promessa. Eu sou da manhã, mas quase a evito. Eu sei: eu quero evitar a mim mesma, mas me perco na impossibilidade de concretizar-me. E na falta do concreto não quero partilhar a dureza da minha abstração. Não quero pensar que escrevo aquilo em que quero acreditar, nem aquilo que foi, que pode ser ou que tolamente julgo que será, e sim o que simplesmente é. Dedicar-se ao passado não é exercício de vida, e tampouco o é o apego à espera do futuro, uma vez que ter esperança neste ou naquele, embora possa aliviar dos dias atuais o peso, subtrai destes a sua essência e a força que lhes é devida, sendo o presente o que realmente não se prescinde. (2010)
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