Se eu me encontrasse, diria apenas: foge, não espia para além do abismo. Se eu pudesse encontrar meu eu de outrora, diria apenas: tu hás de ter aquilo que torna impossível o não tê-lo mais. Somente a hipótese será o bastante para arrebatar-te, fazendo-te contorcer com os poentes todos, que vais cansar-te de ver os amanheceres... Cada noite interminável uma promessa quebrada. Tu prometeste que tentarias. E o não sofrer te parecerá uma idéia tão distante que tu talvez te orgulhes de, enfim, ter aprendido a mentir. Que a omissão não te bastará mais. E, para viver, tu terás de contorcer-te nos moldes do que sonhas para ti. Se eu me encontrasse, teria coragem de dizer-me para isentar-me deste fardo? Teria coragem de não ter vivido? Teria coragem de escapar ao calor daquele homem, munida apenas da certeza do frio que viria depois? Porque nada subsiste, e também aquele calor seria efêmero. E há de ser espalhado por muitos mais corpos de mulher. Minha mente arranha, implode; o sangue foge de meus dedos, dos pés e das mãos; os pulmões imploram por ar; os olhos viram pra dentro, querendo esquecer o que foi visto; a língua tão presa que talvez eu perdesse o dom da fala... E as unhas me vão entrando pela pele. Queria jamais ter dito coisa alguma, que todo o dito pode e será usado contra mim. Ai, minhas palavras. Queria jamais sentir. Porque ou sinto, ou não sinto. E se eu sentir, será verdade, ainda que eu não lhe diga... E por que esta idéia ridícula de honrar a verdade? Se eu muito me beneficiaria da mentira. Que a esperteza é fazer jogos com as pessoas, para que eu pareça confiante e em controle de tudo. Quando, em realidade, estou engatinhando no deserto. Seguir o coração é para os tolos. E ele muito se engana ao tentar encorajar-me a dizer o que penso, sem calcular. O cálculo é a ponte que tento construir com o controle, uma habilidade tão distante de mim. Preciso calcular, e repensar, e pensar de novo, para convencer-me de fazer qualquer sentido. Para convencer-me de ter espiado por todos os cantos e frestas a fim de conter qualquer nuance, qualquer ambigüidade, qualquer deixa para que eu fosse posta novamente em posição de defesa e submissão... Basta de estar sujeita, desarmada. Quero meu fogo! Não aceito passar por fraca. Basta de estar atada, encantada. Quero encantar! Tudo que tenho para dar são palavras, palavras, palavras, incompreendidas. Presentes malquistos. E ele, que era tão belo, deixa de sê-lo, depois de tantas palavras atormentadas, que eu queria não ter tido que ouvir, que eu queria poder expulsar das entranhas... Parece estranho que se quebre no ar a promessa jamais feita, a possibilidade nunca instaurada, a esperança nunca cultivada. Parece estranho que eu sofra, só pela promessa de não sofrer... Parece estranho que eu siga buscando aquele calor de homem, dissimulando tranqüilidade, enquanto queime por dentro minha frieza por não ser correspondida... Parece estranho, muito estranho, que eu me apaixone.
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