O discurso do subjugado será aqui destilado, como um protesto tímido, quase um depoimento poetizado. O jugo das eras e dos tempos e das ideologias, transposto a uma alma simplória de moça, sem nenhuma ambição. Podes tê-lo como uma confidência, se quiseres; um desabafo pueril, de cabeça baixa mesmo, que é para combinar, e para ver também se assim escapo aos tropeços de minha vida de palavras. Esperançosa por nada, nada além de uma tranqüilidade. Que, se algum dia me for concedida por mim mesma, será a salvação eterna. Há o pecado, e há a doutrina, e há a cultura, e há o senso comum, e há o machismo, e há a natureza, e há a luta, e há a igualdade que não há. A igualdade que não há. E a liberdade de pensar (?). Parecerá desintegrado, porque é. Sou uma menina e não devo ter o compromisso de estar sempre certa. Nunca o quis. Quereria, porém, a indulgência; ser ouvida com benevolência. O que houve com a benevolência? Vou ser punida por ser benevolente? Toda ouvidos, e toda braços abertos? (Sou quase maternal. Isso, porém, não me ajuda.) Fecha-te, e vai-te embora. Não te preciso. Ter por ti admiração é outra coisa, que igualmente não me compromete a dar-te razão. Porque não a tens. Ela nem existe. Olha-me do alto, e me sinto baixa. Sou mulher não-feita. Mas também nunca fui jovem. Minha seriedade imiscuída de sensibilidade e benevolência me torna assim um alvo de fácil acesso. Irrita-me, pois, como a uma criança que nunca fui. Apenas enviesarei um sorriso (trágico). De baixo, vejo, porém, as bases das coisas todas. E tudo que tentares dissimular. Julga-me, pois, de tua perspectiva privilegiada pelas eras, pelos tempos, pelas ideologias. Minha fala, minha imagem, transvestidas por intriga da oposição. Por que assimilei esta idéia de guerra? A dominância que me dita os parâmetros de aceitação. Não se encaixar é não existir; o ser humano só é na medida dos outros. E, para protestar, é preciso força, é preciso orgulho. Que eu não tenho. Só busco uma existência, uma dignidade discreta. Um respeito? Que me seja concedido ao menos o respeito por ser consciente de minha simplicidade (desinteressante). Querer um homem é querer a humilhação. Querer um homem é violência. Objetifica-me então. O pensamento, que nada tem de natural, é tão somente um prolongamento da passividade eterna; um gosto amargo, evidente, aceito, esperado, acostumado, padrão. Subserviência. Transtorna-me falar, falar, falar, para apenas não ser ouvida. Um testemunho de inferioridade apenas, a ser usado contra mim em tudo o mais que buscar ser agido ou dito. Um testemunho de fraqueza, de alma insuficiente a ser ensinada como uma criança. Subestimação. Usa-me então para alimentar tuas fantasias e ilusões de macho. Ponha-me então na posição que quiseres. Via de mão única. Se queres comer, eu dou. Ponha-me a esperar idoneamente pelo que queiras me dar, negando-me outros caminhos. És homem, percorra-os todos. Sou todas as mulheres que tentei ser. Sou todos os homens para quem tentei ser alguma mulher, que eu nunca fui. (Pensando que algo de muito, muito errado me percorre e me possui toda vez que eu tento.) Sou aquela que busca profundamente o cuidado, cuidar e ser cuidada, pelo descuido da palavra que me trai. Como ser compreendida? Corporificando a objetividade impossível, que não deve mais ser buscada. Relacionar-se é impossível e inevitável. A entrega que me convida, me impele, me é imposta de dentro e fora para dentro, me antagoniza, me confunde e antinomiza, anula as forças opostas, me deixa com nada além de um suspiro, um desvio de olhar vencido, a entrega que habita meus sonhos, mas me ofende, me inunda de impurezas, me faz pecado, me faz estigma, me banaliza, me faz ridícula, e me sugere, com cumplicidade de salvação: fuja, não é esta sua natureza. Não tenho vocação para ser mulher. Tampouco suportaria ser homem. Quero tudo, temo a todos. Quero ser a pureza contida na água, no céu, nas árvores. Quero ser o tempo e o espaço de outras classificações. Quero um amor que não me violente. Deus está sempre, mas não comigo. Nunca me senti amada.
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