terça-feira, 8 de maio de 2012

Ser afetada

Esses meus desencontros, que são encontros com o intangível em outro ser, eu atribuiria talvez a uma obra do destino, na falta de capacidade de pôr as verdades num todo inteiro ou visível, composto por relações claras de causalidade, ou sequer de atribuir verdades aos fatos, pois já nem penso em fatos, mas em sensações. Mais: impressões. A forma de conciliar meus ímpetos intuitivos com qualquer armadura de razão me escapa por muito, e já me abstenho da pretensão de alcançar qualquer espécie de objetividade cartesiana. Falo em destino como poderia falar em astrologia ou magia, com uma propriedade vaga e inocente de estrangeira instalada em terra nativa, no intento de decifrar um universo de conhecimentos misteriosos. Qualquer classificação é melhor que a ausência de classificação. Ir ao encontro deste interesse tão iníquo e tão gratuito deve ser obra do destino: tem de haver alguma força superior incontrolável determinando os meus acontecimentos, com todas as gravidades e falhas. Não espero nem pretendo sugerir que eu creia que o plano do destino seja instanciar um algo de realidade concreta em nome do meu interesse, ou mesmo um interesse correspondente que flua do objeto de análise a mim. O plano do destino, creio, é bem mais tímido, como a autora, ou de uma coragem muito secreta e imprudente ainda, também como eu. Penso que o plano seja tão somente suscitar meu interesse, coagir-me a cultivá-lo em clandestinidade, nutrindo em segredo este tabu de pensamento. Qualquer idealização de entrega é melhor que nenhuma entrega. Meu destino fica sendo, assim, desafiar meu bom senso a custo de um quase nada, talvez para poder ainda ter acesso às fontes primárias, mantendo minha posição de relativa segurança, enquanto ainda tenho qualquer controle sobre minhas próprias crenças. Teço fantasias e hipóteses para então matá-las, organizando e inventando conceitos para ver que prazer estético há em poder pensar, pensar apenas, e me contentar com essa tão restrita materialidade de ser. Tudo que eu pensar é material, mas só existe na minha cabeça. Tal é o meu destino. Brincar com palavras, sem viver o que vêm a representar. Então vou brincar de dizer que aceito, que nada me perturba, que não estou impressionada: que não fui afetada. Não sou tão normal quanto gostaria de pensar que seja.

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