E eis que, precisamente em
ocasiões que não me pareciam, a princípio, em nada propícias, brota do cerne da
mente o mais conspícuo pensamento, cabal e conclusivo, óbvio, fóssil, como se
ali houvesse residido por muitas eras à espera de ser desnudado. Revela-se a
descoberta célere e vacilante, quase moribunda: se eu não perscrutá-la e
consumi-la com toda minha intenção ao primeiro segundo, ela esboroar-se-á
diante de meus olhos como vento em minhas mãos, extinguindo consigo quaisquer
esperanças de que fosse restaurada. E assim é a natureza de minhas idéias: há
de se apoderar delas no instante em que são concebidas, como se conquista um
conhecimento recebido de dentro. E pensar para mim é um parto. Posto isso,
curioso seria concluir com acuidade vitoriosa um pensamento quando nem mesmo o
estava a buscar. Digo: é com uma singularidade tal que recebo afavelmente um
filho meu nos braços sem ter consciência prévia de estar, digamos, grávida. (A fertilidade está sempre; falta aquilo que faça germinar, e ficamos por esse eufemismo.) Talvez seja
exatamente essa a natureza primitiva dos pensamentos, que não se devem convocar,
mas acolher, conforme uma convergência prescrita pelos mesmos, à qual
obedecemos como discípulos de nosso próprio conhecimento. Uma conclusão legítima
a recebemos através de um fluxo imediato, mais fugaz ainda que a transmissão
sináptica, que nos revela à consciência espaços inteiros inexplorados do
interior do ser. Quando damos pela idéia, pronta está, e no instante seguinte
terá deixado de existir, caso não tenha sido vivida por inteiro naquele
anterior cataclismo de nascimento. E após me esclarecer a respeito de meu
processo de descobrimento, verdadeira introspecção epistemológica, relato enfim
a descoberta. Entendi que o fato de eu estar cá a refletir é a prova exata de
que não sei quem sou. (Ouvi certa vez: a linguagem é a prova de que não
sabemos, ela é a beleza do não saber.) Escrever é não saber, talvez no intento
de sabê-lo. Se soubesse, sabê-lo-ia, esgotam-se as palavras, faz-se
desnecessário este esforço, faz-se ditador o silêncio, vem oportuna a ação, no
que venho a desaguar em outro pensamento: será que quero dar-me por entendida?
Vale conhecer-se até as vísceras, e ao avesso, inflexivamente, em irrevogável
integridade? Talvez eu não queira saber. (Imagine, eu ser quem eu sou? Que
absurdo. Não se me imponha tal desafio.) Talvez eu queira somente a eloqüência,
ou uma busca, e quanto vale a busca quando se termina, quando se atinge a coisa
procurada? Ter-se-ia então apenas a coisa e, por enquanto, não sei de que coisa
tratar-se-ia, sendo impossível julgá-la. Que fazer dela? Que fazer de uma
existência compreendida? Mal sei especular sobre a incompreensão. E a
compreensão tem de ser necessariamente mais vasta, ainda que mais simples. (Li
certa vez: a simplicidade é a verdadeira perfeição.) Certas vezes
perscruto o céu buscando entender a beleza, mas ao invés acabo por entender a
feiúra. Entendo que, perante um incerto, porém eterno, céu desses, a beleza não
existe; já seria insultada na tentativa de competir com tamanha grandeza afásica.
Tudo que tenta ser belo tem de ser expurgado. (O belo sempre me foi efêmero e
inatingível.) Então entendo e aceito a minha falta de beleza com uma humildade
que engrandece, invadida de um torpor sábio e ainda pueril, como entender?
Apenas ao olhar o céu sou capaz de aceitar a minha intangibilidade, e não me é
tentador entender, mas apenas quando olho e realmente enxergo, pois de resto
fico a lutar contra mim mesma, instigada pela crença de querer a todo custo
conquistar um entendimento. Uma exigência de clareza, coerência e controle que
já não sei de onde me vem. Mas não sei o que é que afinal estou tentando
perceber, nem a fim de quê. Como se entender me fosse o caminho para longe da
angústia, mas que me leva sempre e invariavelmente a mais perguntas, e cada vez
a menos ânsia por respondê-las. Se não por qualquer outra coisa, apenas pelo
receio de enfrentar uma dureza de respostas que eu não estaria preparada para
aceitar. É sonho ainda, é meninice ainda, ou (ilusão de) coragem demais ainda, para ceder à
displicência convicta, à auto-suficiência bruta, ao pragmatismo soberbo, ao romantismo
desdenhado, a qualquer coisa mesmo, pois não me decido por nada; creio em tudo, mas não me prendo a coisa alguma, e o relativismo é tanto que eu não
poderia ainda nem mesmo descartar minha própria hipótese, apesar da insípida confiança que tenho em minha pessoa. Sejamos ingênuos.
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