E a máscara já se me vai encaixando gradativamente, intensivamente, mas por meio de uma sutileza que quase pareceria precipitada, se eu não tivesse a certeza ávida do esforço mental que levo comigo, diariamente, ao compor esta imagem falha de mim. Falha, porque não se assemelha muito ao que eu teria do "meu ser", ou, ainda mais importante, do "meu ser aos seus olhos", aquele que eu gostaria que ele viesse a perceber, ou mesmo admirar. Certo é que ele vê uma série de coisas, mas ah, por que me contentaria? Quero a consumição, quero a consumação deste afeto combatido a cada dia, no virar de olhos, no dar de ombros, no torcer de narizes, no calar de bocas, no aperto de mãos. Na franja que me cai aos olhos, insistentemente, e que me comove, mas tanto menos que a reação dele, insistente, de impelir-me a parar de aborrecer-me com cabelos. É que ele não vê que estou em processo diligente de construção de imagem que se compatibilize com a dele, que seja um pólo de atração natural, e que, se a imagem minha se conflitua já com a própria imagem que eu teria de mim, ou mesmo desejaria para mim por mim mesma, a realidade de um conflito em relação a ele seria intolerável, posto que o conflito por si só já me seja um abalo de estrutura. Ele, já, ocupa um espaço de significado em mim, embora mal o saiba. Vivemos assim, disse ele, um em reação ao outro, um em correspondência ao outro, ocupando esses espaços que vão sendo disponibilizados e sentindo terreno. Mas ah, para ele isso é atividade vulgar, despendida a muitos outros com displicência. E mesmo se fosse real a contingência de unicidade, isso mal mudaria os fatos, posto que ele seja, segundo as próprias palavras, má pessoa de quem se esperar qualquer coisa. Declaro já que não espero, em termos de expectativa emocional, mas grita o inconsciente que ele seja levado em conta em meus eventos cotidianos e que eu já fique, em certa prontidão, munida de meus espaços um tanto quanto vastos demais, um tanto quanto desprotegidos demais, mas hiperconsciente da máscara que devo portar e com que devo revesti-los, da distância a ser mantida e que eu anseio por percorrer. Por que motivo? A distância é o que me permite ver as coisas todas com alguma realidade; já não diria objetividade por não saber o que significa. O viés está sempre. A distância é o que me permite não me perder, e conseguir ser ainda apesar do ser dele, lá na distância que eu perscruto sem muito explorar, que é para saber o caminho de volta. Como, uma vez atravessado o ponto sem retorno? Mas ah, tudo bem ainda, o ponto foi atravessado em mim, não o atingi ainda; o afeto não constrói uma ponte de mim a ele ainda; está tudo em minha cabeça. Mas meu corpo todo se orienta e gravita com intencionalidades cheias d'ele; meu peito respira todo cheio de uns azuis brilhantes que eu vi n'alguma parte do seu corpo magro; meus dentes percorrem as unhas todas com a obstinação oral de saber não poder explorar dele uns cantos e locais proibidos; cada terminação nervosa atenta-se toda para a existência dele, como se fosse algo de único e fenomenal. Cada pessoa é um fenômeno todo único e todo incrível, mas vez ou outra duas existências chocam-se, pegam-se, transmutam-se, impressionam-se, conscientemente ou não, exteriormente ou não, mutuamente ou não. Ou não. E se isto for tão somente uma criação alucinógena de moça imprudente ávida por ter aquela presença de sentimento a que se dedicar? Sou isso também. A dúvida sempre constante em tudo que eu pense, faça ou diga. E ele há de perceber sempre isto também. E apontar-me os defeitos, e aparar-me as pontas, e reanimar-me os pensamentos acerca de sua inacessibilidade. Como explicar a coabitação de eu e ele? De eu-real e eu-sonhada? De eu-amiga e eu-admiradora? De ele-amigo e ele-...? De ele-inacessível e ele-atencioso? De eu... eu... eu... eu... eu... e amor...?
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