Já não saberia diferenciar o sonho do real. Meus dias, passo-os arrastando meu corpo para enterrá-lo na cama, o peso de todos os tempos e todos os sentimentos da humanidade, e depositá-lo conformada naquele espaço miúdo da minha existência. Minha cama, meu quarto, meu corpo. É que não poderia ficar de pé, ou mesmo sentada, por muito tempo, antes que começassem as convulsões violentas que têm origem assim bem no peito. Deito, e amorteço a queda certeira. Retorço-me no meu espaço, viro, abraço o que não é, entrego-me ao que não me quer, e me iludo, de(le)ito-me em sonhos, de prazer ou crueldade, todos voltados a ele, a esta existência que também não é. Transmuto-me de nada a nada a cada segundo, a cada movimento. A saudade, em sonho, é como que mais real, porque consegue compor alguma versão visível do objeto desejado, mas coberta por um filtro, uma camada transparente e anestésica. O que sinto é a realidade de todos os caminhos que percorri para chegar até aqui, e olhar para trás, para aqui-e-agora, e para frente, e enxergar dentro dos olhos da morte. Se acordo, parece um erro. Volto a me arrastar pelo mundo, que parece querer continuar a girar sem que eu vá junto. "Eu sou um ponto de resistência à ordem cósmica." Sim. As funções fisiológicas parecem tentar ir ao contrário. Parece que estou retrocedendo no tempo e no espaço. Levanto, cambaleio, tento ser gente. Sirvo-me um pedaço de pão. Mordo, e o primeiro pedaço é toda a minha vida, amargo e impossível, e mastigar parece um esforço grande demais para um intuito que eu nem tenho. Intuito de quê? De ser uma pessoa? De continuar vivendo? Mas o pão não é mais real que a minha saudade, a imagem dele latejando em minha mente, brotando do peito. Largo o pão, e é como declarar falência, deitando-me onde seja, na posição mais curvada que encontrar, em convulsão, em lágrimas que são a lembrança dele residente em minha alma para sempre, em amargura, entre o sonho e a realidade. Já ele deixou também de ser real. O real agora é só o sentimento, cada vez mais profundo, cada vez mais espalhado por todos os meus cantos e por toda a minha história. E ele cada vez mais distante no tempo e no espaço.
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