Carrego um espaço vazio e um tanto ermo. Penso que pareceria até acolhedor, se não fosse tão inabitado que eu já não começasse a me esquecer de como era segurar a mão de alguém. Mais importantemente, começo a me esquecer de como é que eu segurava a mão dele, como é que ele me sorria. A solidão é uma presença corpórea, azul celeste, difusa em meu corpo. Percebi que deixei de esperar, e foi uma pontada de náusea ainda, a mais exclusiva, que só ele me poderia proporcionar. Mas talvez o desapontamento seja tão profundo que se transforme em fúria que me ocupe toda, superando a náusea, uma comoção de exílio tão inexorável que me faça dar as costas sem olhar para trás, arrastando os pés com o peso das lembranças que não devo mais explorar, até que se desprendam de mim naturalmente. Uma bagagem um tanto inútil para se carregar, mas que não sei abandonar ainda, como se o peso fosse ainda parte do que sustenta os meus passos. Um dia desses, em limbo, nesse caminho sem começo e sem fim que eu percorria desde sempre para toda a eternidade, até encontrei a esquecida bagagem dele, o peso deixado para trás, e senti-me impelida a trazê-la um pouco comigo, caso ele decidisse vir procurá-la, talvez para dar-lhe uma despedida digna, e assim o fiz, carregando o mais que permitiram minhas forças; e eis que enfim, na calada da noite, uma noite sem lua e sem lágrima, sua bagagem me foi roubada, exatamente como o pressentira, sem que nada pudesse fazer para evitá-lo. Meu passado me foi roubado, seqüestrado, forçando-me a enxergar outros tipos de presente e futuro, simplesmente porque confundira intuição com emoção. Pelo menos não estou racionalizando, porque a razão já não me cai bem há tempos. O pragmatismo parece uma blusa apertada que não me serve mais. Tenho uma vantagem de tempo, mas que não me serve de muito, posto que apenas eu o reconheça, e não o saiba utilizar. Talvez seja o reconhecimento de um tempo do qual nada deve ser feito. Mas ninguém há de negar que tempo é tudo em uma vida. O tempo excessivo, o tempo escasso, o tempo subvivido, o tempo matado, o tempo perdido, o tempo esquecido, o tempo compartilhado, o tempo doado, o tempo acolhido, o tempo insuportável, o tempo desconhecido, o tempo incompleto. Tropeço nos fragmentos de tempo dele que encontro aqui e ali, chuto uns com veemência, arrasto outros para debaixo do tapete, enfio alguns embaixo da pele só para ver sangrar, escondo uns no bolso, e sei que ele encontrará eventualmente algum fragmento do meu tempo também, mas já não posso ponderar sobre o que fará a respeito. Já não há tempo em comum. Um tropeço não é um contato válido. E, se um não quer, dois não fazem. Agora faço questão de não querer também. Não por orgulho, que não o tenho, nunca o tive, nem saberia como criá-lo. Não por inteligência. Não por maturidade. Não por benevolência. Não por desapego. Não por exaustão. Mas por um respeito ao tempo dele que eu nem sei se ele merece. Por uma tristeza ilimitada, que de tão vasta já não sabe pelo que lutar, senão por tudo, senão por nada, de tão difusa por todas as coisas que me compõem, de tão incorporada, sou a tristeza personificada e individualizada, ainda que universal de forma a quase entrar em paradoxo. Fico triste por mim, não por ele, mas pelo menos sei que por mim ainda há algo que possa ser feito. Potencialmente amável. Perpetuamente humana. Suspensa e aberta. Aberta.
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