Escuto o ruído característico de carro entrando em minha quadra, e no mesmo instante enterro o rosto nas mãos, contraindo os olhos, no ímpeto de afastar esta expectativa insana da cabeça... Sim, pensei, poderia ser ele, poderia ser ele, ele viria como tantas vezes antes, mas agora por mim, mas agora decidido, mas agora cheio de algo para dar, e ouvidos para que eu falasse... Sim, poderia ser ele, ele viria porque sentira o mesmo, porque estaríamos em sintonia, porque saberíamos finalmente a forma certa com que nos olharmos, e a forma certa de corresponder carícias, e de não levantar a voz para sermos entendidos... Sim, seria ele, seria ele como tantas vezes antes, mas em novidade, em surpresa, em paixão concreta por tanto tempo reprimida... Resgato as lembranças de todas as vezes que o sentira chegar, antes de vê-lo ou ouvi-lo... Resgato a sensação de amá-lo pelo olho mágico da porta antes de abri-la... Resgato meus sorrisos entre seus abraços, calor e aroma de banho tomado... Pele minha, pele dele, intimidade... Resgato tempos, resgato desperdícios, resgato violências, resgato displicências, resgato perdas, resgato doação... Vêm-me as lágrimas, e resgato também o sabor das dele... Meu único namorado... Resgato a dura realidade... Resgato o frio com que eu era deixada ao sabê-lo ir... Eu era deixada à minha independência e liberdade, mas por que a quereria... Por que a quisera... Escuto novamente o ruído, e é o carro dele indo embora agora... Ele vinha a me ver, ele vinha para ficar, ele ia, sempre para voltar... E hoje, como aceitar que ele não venha jamais? Porque não é ele... Não é ele... Já faz tempo que não é ele nunca, e não será ele, não será ele... Jamais?
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