Já tentaste fechar os olhos? Se tudo se resolvesse em fechá-los. Eu não estaria a ver-te, além-pálpebra. Não estaria, talvez, mirando tua sensação de ver-me. Fechada, porque aberta. Compensativamente. Tonta de ti. O corpo se dobra, pisca, tremula, oscila. Que a boca procura a sede que se resolve em outra. Até que eu sentisse os dedos teus pelos meus olhos, chamado percussivo, chuviscando meu nome, pronunciado em textura de pele corrente, adocicada tessitura da voz tua. Eu, branda, já seria tanto desses dedos que não saberia alinhar-me em simetria à urgência. Porque a urgência já estaria rutilante em meu fôlego atravessado, ritmo diluviado do suor a vir depois. Vertendo, gotejando. Reencontrada em ti, sempre novo e escuro, sempre fogo, palpitando luz em cada artéria. Te antecipo as chegadas, as viradas, a pele que há de vir, e que não se ouse descolar de mim, ansiados dedos que se enterrem, a estirar-me, prolongada. Olhos fechados que não espelhassem teu sorriso sorvido, que no meio da tontura já não basta olhar. Porque o teu perto é tão dentro que eu me sinto longe, inteira no mundo. Um mundo teu que, se eu disser... Que eu já habitava? Os olhos, ao som do te ter, têm a ousadia de reter-se. Vêm-me tuas mãos, asas, voz de água, a desanuviar-me, precipitando-me às profundezas até que o som fosse luz, cor, vento, rútilo. Ar preso nos pulmões, haurido, ato de constrição, e logo ato contrário, de desatino, olhos indesafiáveis que vêm entrar, escorrer da boca o som. Que, se eu disser: o que se fez do instante de ti em mim. O instante de olhos fechados, em que o te ter se torna apenas ser, e estamos sendo. À distração, os meus buscando em ti o refúgio, minha luz particular, atemporal. Se hoje te pareço imperfeita, terrestre, olha-me de novo, preenche-me de amenidade, dessas que só em ti se detêm. Escuta o som do teu corpo transfixo no meu. Escuta, como os sons de fora que sei que vêm de dentro, tua fluidez em mim resguardada, de um espaço entrecerrado liberto, ardente nesse passo de tu-e-eu. Que, se eu disser: quase coreográfico. De perto, teus olhos como se eu já fosse tua antes de ser. E era. Que não és como eles, bem o sei, mas sabes que sou eu? Que sou ao lado teu. Vê que, contigo, todas as partes de mim se depuram a cada parte tua, a cada palavra um canto. Que, se te destoas, eu consono contigo, e o reverso. Porque dos outros tão cheios de um nada. Porque de antes eu tão farta de um vazio. Porque, em ti, olhos fechados agora acesos nos teus dedos. E a tensão amena de abri-los, mãos que me colhem em espelho d'água, a escorrer entrededos. Que, se eu disser... Os olhos meus que já anseiam por beber-te, encerrar-te adentro, em eterna sede. Olha-me de novo, a cumprir-me infalível, que eu te prometo não fechar mais nada.
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