Sessenta dúzias de quartetos de tempos, e ainda era amor. Ou já era amor? Antes de ser. Ou nem mesmo amava. Porque era o próprio amor, então fluía através dele, já incorpórea, porque verbalizada nele. Então existia agora em essência e não se bastava em palavra alguma. Nem mesmo amor. Quatro quartetos de tempos, e eu quero gritar que já não posso andar só. Já não posso andar só pelos caminhos. O amor é uma companhia. E os amores que morrem têm sentido de ser pelos que nascem. E eu não poderia ver o sentido com olhos duros: sou embaçada e canto lágrima, vejo com olhos suaves, de algodão, de seda, deslizando, de pétala de rosa, de seio de mulher. A silhueta do amor transportável. E, se eu transportei, é porque também transportaram. A leveza e o peso. Que faca retorcida dentro de mim. Que morte, saber-me cadáver dentro de alguém. Que morte, sabê-lo nascituro em mim. Que vida, que vida, que vida nova. Como vivi em dois, três, quatro, cinco tempos. Como fui feliz. Meia dúzia de tempos, e sessenta dúzias de quartetos de tempos comprimem meus olhos. Toda uma vida enterrada num peito que foi meu: quarteto de cordas. Um ciclo se rompe para que nasça um outro. E o outro é lívido e todo novo para mim, e por novo quero dizer também que me renova, reascende, revive, resplandece, revela, restitui, regala, refarta, repara, noviciadamente... Eu nunca fui tão olhar: estou vendo bem tudo com uma clareza que quase me anula como pessoa. Lucidez? Me equilibro na entrega. Mas sinto que me aproximo de me ser, entre o claro e o escuro dos ecos do tempo. Tenho vontade de conversar com alguém. Mas esse alguém não me ouviria. Eu não quereria nada, senão ouvidos. Não ser nunca um som pretérito de oco. Pois a mim falta apenas livrar-me desse ímpeto: o de ser tão presente. Quisera ser atemporal; ver nisso o sentido do silêncio. Sessenta dúzias de quartetos de tempos, e aquele homem teve de matar a mulher para não ver nela a sua vida a matá-lo. Eu entendi, porque fui morta. Eu entendi, porque hoje matei. Matei, como uma mãe mata para proteger um filho. E entendi que sou materna. Por isso, prefiro a minha morte a ver morrer os frutos do meu amor. Quando for tempo, novamente, abrirei em mim mesma a ferida. Para a vida. E recomeçarei, do sangue; o mesmo sangue das eras e do agora, com seu poder de morte e amor. E entendi que sou a fonte da vida. Se sou mulher, é para ter no ventre a faca. E entendi que a sabedoria do tempo é também sua ferrugem. Não sei que água, só sei a sede. A morte é também uma companhia. Janeiro, não me acabe. Quero aninhar-me na mornidão e na umidade das palavras que tive a graça de sentir. Me mataria em março, me mataria em março, só para que não deixasse de amar. Embora eu saiba bem: quem ama já aceitou a morte. Se março, junho?
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