Com a mesma incautela em que chegara, há de ir-se. E o som do Homem que vai embora: é onda batendo na pedra. Com a naturalidade inintencional do movimento de águas do mar. Vai lua, cresce, incha, explode, míngua, esvai, resplandece, e flui nos altos escuros do céu, governando humores os mais misteriosos, sopros de interferência, ventos, uivos, cantos de sereia, e histórias de navegações que não me chegam à ilha. Ilha de mata pouco habitada; não virgem, mas toda fechada, densa nos limites, raízes bravas desmoronando delicadamente pelas areias, ar terroso, e flores no coração, frutos nas copas, e lá de cima a vista imprecavida de um céu quase moroso — ah, de tão límpido. Contemplando animosamente o caudaloso das ondas do mar — se à espera, se aos cálculos, se a enamorar-se sem saída, cobiçando o sal e as lonjuras, o fundo do oceano, a vida escura de caverna, os raios de sol que entrassem, ou mais: luz da própria lua, que se fizesse em nuances pelos tons gradativos de azul. E a sensatez parece pouco desejável. Talvez porque nunca houvesse feito realmente uma Mulher intensamente feliz. Minha ordem autônoma nunca se baseara na sensatez, mas numa espécie de loucura de isolamento dissociativo. Separar-se de tudo, ou dissolver-se em tudo, em desespero irracional, a fim de obliterar o próprio senso, na esperança de que, com ele, se expurgasse o jugo da emoção. De dócil que fosse, flor, mulher, terra no fundo do mar, feixe de luz da lua, havia que se manter de doses periódicas de emocionalidade. E ocasionais melodramas, água salgada transbordando pelos espelhos da alma, secando na pele do rosto, rosto macio de dois olhos duros que viam tudo e já sabiam não poder da vista fazer nada. O que criar das chamas que me entravam naquele momento pelas retinas? Bem sei que tenho a arte de ser cinzas. Lava, pó, nada. O que sobrou de um desejo — arrasta sempre os vestígios de naufrágio para a costa da minha ilha. Todas as manhãs, lá vagueio e vejo: vazios e promessas estiradas no sol. Todas as noites, embebida de luares, intento retirar-me — mas repousa na consciência a veia fantasma. São as perdas que me trouxe a correnteza. E as correntes oceânicas que não me calha combater. E os trajetos lunares, a dança dos planetas, e o reino profundo dos mares que me escapam a todo controle, voz, compreensão. Ilhada, cobiçando fundo, sei-me a imagem inteira de um náufrago, estirada em vislumbres e aterros da ruína, condenada que sinto, sem me poder situar; mas algo de resignada, em verdade esperançosa, de venturas passadas e vindouras, sonhos de horizonte que não se findem no olhar. O som de quem fica. Fica, não eternamente, que nem eu mesma sou eterna, e nada existe neste conto fora dos limites de mim. O mundo é esgotável, e o tempo é escárnio. Não espero, ao fim e ao cabo, nada, nem ninguém. Mas sigo mirando este horizonte como se implorasse: basta, só permaneça. Que as coisas duvidosas me exaurem já, as coisas caudalosas, as coisas efêmeras porque de um movimento constante incombatível, as coisas mesmas que me alimentam — porque é toda a regra do mundo: são as que me tiram toda a avidez. Viver me mata! O mundo deve ter sua maneira natural de fazer seus mortos e vencidos. E me ousariam falar em sensatez? Pois choro o mar inteiro que me revolve, em náuseas de coragem, persistência inata, força bruta que me imobiliza por dentro, recuos, receios, nós, velas que me alcem a destinos mais límpidos. O tempo presente ignora horizontes. A hora seguinte me trai com o peso de ontem, anteontem, luas e anos passados, a vida passada que eu vira escorrer por entre os dedos da mão aberta, aberta de marcas a fogo. E quem me vê, como vê tantas, como vê qualquer coisa, como passa indiferente, incontentável, como viaja feito tempo, como poderia me entender? Ninguém; pois todos passam, passam e ficam, e já não fica nada? Como apartar as frações da vida, as porções de água do mar? Coisa una que não se divide, mas semovente, jamais se mantém em única ordem: fluxo eterno e constante de um inacabado pleno de partes. E os papéis todos de quem me passa e enxerga se camuflam e imiscuem no meu próprio olhar sobre mim. Já o mundo assimila essas cores e eu me encontro solta no tudo-e-nada do mar. Como eu sei, aguda, de tudo que se vai! Como eu sei, pungentemente mais, de tudo que fica...
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