segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Indulgência

"O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarniçadamente prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre! Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar. Não ter pois avareza com este vazio-pleno: gastá-lo." Clarice Lispector

Querido,
Estou em comunhão tão profunda com aquilo que não é em mim, que não me posso durar em minha companhia; aborreço-me, contorço-me na cama, posição de impacto, indefensa em bola, mergulhada na penumbra abafada e desabitada do quarto. Alguma criatura vem crescendo dentro de mim: sinto-a estirar as garras em meu estô-âmago, tecendo raízes, agravando um peso interior, estreitando as aflições. Estou comotiva, comissiva, rente aos fatos, lente de aumento, câmera lenta, lacrimejando em conversas diurnas, olhares fulminantes, dobrando todos meus ângulos para encaixar-me no menor perímetro de mim, torta e fechada, incontentável: porque no que me deixem só e eu me cubra de escuro, escura me faço, preenchendo-me, e transbordando-me, e as frestas são os olhos. Duas vitrines, dois espelhos através dos quais sinto despejar todo o visto, sentido, vivido, olhos que são testemunhas da falha razão que me custa manter, tênue equilíbrio perpétuo.
O real, o possível, o excessivamente sentido que beira o imaginado, o sonho, o duro e o delicado, o preterido, o memoriado, a minha humanidade noturna e lacrimejante. Estou existindo em lágrima. Que eu nunca devolva a ninguém. Pois dela o sal me vem à língua e eu levo abaixo pela garganta ao monstro que me habita. Será que se há de satisfazer com este algo de amargura exaustivamente exasperada? Estou na mais aguda solidão que eu poderia oferecer. E meu intento de dá-la a ti é o presente maior que faço por amor. Pois a solidão é a coisa mais última que se pode dar de si. Sozinha, escura, lacrimejante, estou como deve ser para que te diga. Enfim, dar-me. A mim? Ao escuro. Vale, porque não hás de saber. Talvez estejas ouvindo sons de onda: reais ou possíveis. Por detrás das cortinas de meus olhos, posso ver-te em enternecimento.
As distâncias me amansam mais e mais, em reflexo ao avesso. Sozinha, liberta dos jugos, livre de todo comprometimento, sei que não pertenço. A verdade me é uma sombra, espectro noturno de um nó que desce da garganta ao ventre: se o impasse é este. Depois da despedida, eu sigo sendo tua. Entre quatro paredes, é que não sei ser minha. Falta-me um outro alento. Que eu não me sufoque com o peso das escolhas. O real é existirmos em separado. Em ausência, eu mais tua do que fora quando estavas. Em presença, dissociada perpetuamente de mim. O duro e delicado de não poder ser conhecida. Não há jeito. Tão logo serás o limite da distância entre dois corpos. Em minha noite, penso-te como se foras dia. Quase irreal a mim. Em minha noite, a confissão: dói-me o vínculo esmorecido; doem-me as distâncias; sou toda o ato e a ferrugem. Anseio a presença: nela, esqueço-me de que sempre terás partido, em qualquer canto, pranto, hipótese e lembrança; mais grave ainda: adio o medo sempre iminente de que eu mesma precise partir, e seguir partindo, eternamente. Eternos fins que impliquem eternos recomeços.

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