"O prazer é abrir as mãos e
deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarniçadamente
prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou
perdendo nada! E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre! Até
que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas
vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar. Não ter pois avareza
com este vazio-pleno: gastá-lo." Clarice Lispector
Querido,
Estou em comunhão
tão profunda com aquilo que não é em mim, que não me posso durar em minha
companhia; aborreço-me, contorço-me na cama, posição de impacto, indefensa em
bola, mergulhada na penumbra abafada e desabitada do quarto. Alguma criatura
vem crescendo dentro de mim: sinto-a estirar as garras em meu estô-âmago,
tecendo raízes, agravando um peso interior, estreitando as aflições. Estou
comotiva, comissiva, rente aos fatos, lente de aumento, câmera lenta,
lacrimejando em conversas diurnas, olhares fulminantes, dobrando todos meus
ângulos para encaixar-me no menor perímetro de mim, torta e fechada,
incontentável: porque no que me deixem só e eu me cubra de escuro, escura me
faço, preenchendo-me, e transbordando-me, e as frestas são os olhos. Duas
vitrines, dois espelhos através dos quais sinto despejar todo o visto, sentido,
vivido, olhos que são testemunhas da falha razão que me custa manter, tênue
equilíbrio perpétuo.
O real, o
possível, o excessivamente sentido que beira o imaginado, o sonho, o duro e o
delicado, o preterido, o memoriado, a minha humanidade noturna e lacrimejante.
Estou existindo em lágrima. Que eu nunca devolva a ninguém. Pois dela o sal me
vem à língua e eu levo abaixo pela garganta ao monstro que me habita. Será que
se há de satisfazer com este algo de amargura exaustivamente exasperada? Estou
na mais aguda solidão que eu poderia oferecer. E meu intento de dá-la a ti é o
presente maior que faço por amor. Pois a solidão é a coisa mais última que se
pode dar de si. Sozinha, escura, lacrimejante, estou como deve ser para que te
diga. Enfim, dar-me. A mim? Ao escuro. Vale, porque não hás de saber. Talvez
estejas ouvindo sons de onda: reais ou possíveis. Por detrás das cortinas de
meus olhos, posso ver-te em enternecimento.
As distâncias
me amansam mais e mais, em reflexo ao avesso. Sozinha, liberta dos jugos, livre
de todo comprometimento, sei que não pertenço. A verdade me é uma sombra,
espectro noturno de um nó que desce da garganta ao ventre: se o impasse é este.
Depois da despedida, eu sigo sendo tua. Entre quatro paredes, é que não sei ser
minha. Falta-me um outro alento. Que eu não me sufoque com o peso das escolhas.
O real é existirmos em separado. Em ausência, eu mais tua do que fora quando
estavas. Em presença, dissociada perpetuamente de mim. O duro e delicado de não
poder ser conhecida. Não há jeito. Tão logo serás o limite da distância entre
dois corpos. Em minha noite, penso-te como se foras dia. Quase irreal a mim. Em
minha noite, a confissão: dói-me o vínculo esmorecido; doem-me as distâncias;
sou toda o ato e a ferrugem. Anseio a presença: nela, esqueço-me de que sempre
terás partido, em qualquer canto, pranto, hipótese e lembrança; mais grave
ainda: adio o medo sempre iminente de que eu mesma precise partir, e seguir
partindo, eternamente. Eternos fins que impliquem eternos recomeços.
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