A ansiedade é a vertigem da liberdade.
A verdade é que estou mansa feito sonolência, mas o peito vibra e quase estala de arritmia. Deve ser mesmo coisa de ritmo: compasso dos dias que prometiam alguma coisa, compasso das noites que me deram mais do que eu sequer ousasse aceitar. Que ainda sou nervo à tua chegada, aguardada. Enquanto é assim, eternamente, não vejo, como só vejo, um porto seguro. O amor que eu cria não saber como volver a mim. E eu descobri que também foste ilha. Talvez ainda mais ilha do que eu, e eu, água. Como tu. Em nosso limiar, partes limítrofes, mistura, os corpos se interceptam, interseccionam. E eu me faço feito argila, eu de terra que venho sentindo bater as ondas, dissolvendo-me, purificando-me, moldando-me à forma do mar: sim, forma infinda indefinida, e por isso mesmo a forma certa e liberta do que eu queria ser. Tu, circunvolvido de mim, cerca-me a ponto de beira, a contentar-me, sem fronteiras, e por isso o vão espaço de ondas sem paredes, sem teto, sem chão, que é o espaço de ti dentro de mim. E por que me sinto, nesta descobertura de corpo de rio lavando-me a alma, a superfície de todas as coisas intocadas, agora resplandecidas, suave som de água corrente, que me conduz sutil como se eu nem lutasse? Porque não luto. Estou a favor da correnteza. Quero que me espalhe. Cerco-te sem te transportar de ti, eterna. Sobretudo quero que me transportes. E que eu possa responder ao teu chamado em voz doce, sem estremecer pela imensidade de ser um horizonte em ti. Havia que ser assim, compassado, a fazer-me voz quente e baixa, aos tortos por toda a visibilidade que me dás. Como se eu estivesse inteira contornada dos teus ouvidos e da tua voz que me define e me ilumina o espaço a convidar que eu o percorra, resistente, translúcida, mas tudo tão percorrível e irresistível. Que seria loucura maior se eu não ficasse mansa, estirada, corpo de argila a se inclinar às inconstâncias do teu. Que eu me assemelho, aqui e ali, faço-me par ao teu lado, da mesma língua, naturalizada, como se me quisesse constar no teu campo semântico. Só porque te ouço e sinto vibrar dentro do meu. Só porque eu não vou perder o jeito, prometo; nem que eu invente palavras novas, vou ter sempre-por-enquanto um jeito novo de dizer-te, de viver-te, de sair de mim inteira para percorrer-me toda só porque a tua vastidão já me transborda de mim. Prometo: enquanto eu for tua, serei renovadamente tua, doidamente tua, incontentável e despalavradamente minha, na medida de todos os inumeráveis respeitos que me paralelizam a ti, e o meu eu que cresce e se invade será sempre o gasto eterno que me faz a cada vez tão maior, tão mais inteira, tão mais forte a cada gesto, que o nervo aqui é ousadia, este afã calmo, fulminante placidez, que se enraíza em mim até às funduras. As asas, sim, se concretizam, porque és o pássaro-palavra. E os solilóquios já estão eternizados. Os diálogos se tecem, e eu-presa sou eu-liberta. Denso desejo que me cobiça como se fosse matar, de tanto fazer-me vida desdobrada, estendida, dádiva e delicadeza. Estou ao lado teu, e por isso é o meu lado e já não poderia estar contra mim. Tua nudez: minha terra, minha simetria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário