terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Roteiro do silêncio

Aquele triste mundo de certezas. Sou: juventude, oriente, vontade de não matar, vontade de nascer, construir pontes entre os outros, atravessá-las, desvendar funduras, aprumar a vista repousada num alto de céu, até esgotar-me, e não esgotar-me, refazer-me, papel-palavra, água fresca, suspiros noturnos, voz no pescoço, cheiro de amor morno, ruas vazias, casas cheias, lava-e-pó, transparência, doçura, consciência, doação, atemporal, terra. Eu tenho um corpo perfeito e às vezes me esqueço. Eu tenho uma vida nas mãos e às vezes me farto. Eu tenho é um coração partido e repartido. Nenhuma parte está comigo. Mas eu sinto em mim o compasso pulsante do mundo, jorrando vida, latejante. Também porque o coração, por enquanto, tem seu teto. Chorará alguém por mim, como já chorei?Alguém chorará como as outras partes desalojadas choraram, como eu chorei eternamente pelo meu eu perdido no caminho, que não volta, não se acha inteiro jamais. E meu coração fatal. Porque o que divide é o que cria: como ser pessoa além do que me cabe? Sem o corte, já não poderia haver o pulso. É preciso dizer: amor da minha vida, eu morro. Se parte de mim habita outro alguém, não é menos certo que parte de alguém segue sendo o que me parte em três, em vinte, em mil, fragmentária, heróica, corpo de luz, corpo de terra. É sempre a terra. A certeza: existe luminância para aquém e além do coração perdido, o coração rendido, que nem estivesse disponível, um sol maior que me habita, casa de corpo, morada da minha voz de repente tão certa. Ainda que eu me esqueça, a cada lua. E que eu me encontre no horizonte sem teto, sem chão. E existe percuciência. Eu reverbero, então existo. E latejo: recomeço, recomeço... Aquele mundo contente de incertezas. A certeza: é sempre tempo de parar as confidências. Não há nada que eu aceite não poder consertar. Ai de ti, a de sonhos exaltados!

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