sábado, 5 de janeiro de 2013

Inquieta alegria

"De novo estou de amor alegre. O que és eu respiro depressa sorvendo teu halo de maravilha antes que se finde no evaporado do ar. Minha fresca vontade de viver-me e de viver-te é a tessitura mesma da vida? A natureza dos seres e das coisas - é Deus? Talvez então se eu pedir muito à natureza, eu paro de morrer? Posso violentar a morte e abrir-lhe uma fresta para a vida? Corto a dor do que te escrevo e dou-te a minha inquieta alegria." Clarice Lispector

Já não sinto o peso do tempo. Se o tempo passa e me tomam as levezas? E já não posso arrastar dores? E o peito abre todo pedindo em cheio o golpe que me derrube ao chão? Eu quero a queda, demorada e inteira sentirei a glória de cair. Porque o arrebatamento é viver. E as sensações me são combustível de vida. E tudo que me move é fora de controle. Quero alçar vôo alto. Planícies, profundezas, penhascos, picos, depressões, abismos, planaltos, curvas e terra, toda a terra que alcança o olhar. Porque vejo um frescor: a aridez de um reflexo. Se tu falares e nunca me soares em estranheza, e me afastares apenas quando ressoar o ouvido de outras, além de mim... Sei que, ao falares, é mais para consolo meu que teu... Preciso falar do que me falta, para não me concentrar no que me dás. Porque corro o risco de amar... Pedaços de exultação que hás de ignorar; pedaços de aflição que não poderás contornar; pedaços de guerra que nunca quis desencadear; sou a paz inteira, e se escrevo é porque sei que estou ao lado teu, não contra ti. Quando hás de ver?

Agora já escrevo com medo. O que me sobra de viver não cabe em palavra alguma. O que eu disser será pausado e irremediável como bater teclas numa antiga máquina. Agora escrevo trêmula da tinta dos efeitos, um receio todo novo de corpo e alma, que me encara em brancura, acusando-me, no ímpeto de escurecer. Mas deito em sonhos de clareza. Ondas por todos os lados. O que haveria eu de negar-te? Como pediria eu de ti qualquer coisa que não me desses já? Peço de ti o grito, para que eu nunca te doa assim. Docilidades, amor. Como não ser feita delas? O medo já não é só meu. Para ser feliz, é preciso permitir-se. Deixa-me entrar, que eu encontro o caminho pelo breu. E, no que ele me envolver, farei-me luz. Escrevo, delirante, febril, um algo tão lúcido, morno, em voz compassada, que em nada te farias mover-te. Ao findares de ler-me, esquece-te de mim. Porque eu continuarei a existir-te.

Ainda que o mais importante fique sempre por dizer. As palavras não me chegam, são aquém do que sou, e teimo com elas por não saber outra forma de respirar. Como tu, que, por transbordar o viver, não chega à flor das minhas palavras. Embora me dês um aroma de vida e ser, que, de tão grave, amplo, indomável, sai-me pelos dedos. Aqui é a meta-vida. Aqui, dialogo com a percuciência dos teus silêncios. Percebe que não é um apelo à fala. É qualquer forma (falha?) de sintonização. Estiro-me, canto-te esta ode, fervendo sangue de poeta: é que tenho febre de extremos. Ardo nas ausências. E nas presenças? Bem já vês o que sou. Também porque nunca intentara escondê-lo. Flor aberta.

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