segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Incêndio

Ele é, como eu, um mundo de boca fechada e olhos bem abertos. Mas fala: eu tenho um caso de amor com a voz. Que se desdobra em triângulo amoroso com o conteúdo da fala. Falando da raridade de pessoas que criam assim mundos inteiros de sensações, ensejando fonte de acesso, um convite. Raras pessoas que vêem um raro mundo. Eu me calava sempre, para ver também, sentindo fluir em mim a via pura dos seus olhos. E, às vezes, poderia parecer que ele falava a si, em fluxo fechado. Eu só estava tão dentro dele porque tão compreensiva de tudo. Quando resolvesse me olhar, estaria em apuros: seria a visão de alguém entrando. Mas é que assim eu saio de mim mesma, pelos reflexos do que me une a ele. Também porque ele já está em mim. Às vezes, parece que preciso de tempo para vivê-lo, como se nunca me bastasse: de contentamento. Apesar de calada, eu pensava com clareza de idéia pronta: sim, tão raro. Tão raro alguém que me prenda assim, até eu me tornar o peso reversivo, aos ares e enleada de água. Simples e raro, sem floreios, pois dele a flor me faz a pele para tão além das palavras. Ele fala, e eu me incendeio.

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