Que eu viva, não só pelo temor do que não for vida, mas pela graça de viver. Que eu viva pura e longamente, à revelia das validades e expirações, que eu mude, que eu perca tudo pelo caminho como vem sendo. Mas que eu não me traia. Simplória nas palavras, sou ainda fiel a mim. Que o tempo e as dores do mundo não me constranjam a perder fé e fidelidade. Vejo o caminho à frente estreitar-se tênue sobre as minhas costas, e o peso das escolhas impelir-me sempre mais a uma leveza, ao lado oposto, à distância, às incertezas e inconstâncias. O incerto me consome de desejo, porque me parece conduzir à lonjura do que me fere com perpetuidade de tijolo. Afastar-me da estagnação morosa, que me vem com aroma de ceder, de resignação, a um destino menos turbulento, menos duvidoso. A minha séria juventude, porém, é precisamente o que não me permite fechar as mãos. Parece que preciso sentir despejar as certezas, deixar-me escorrer com os impulsos, deixar-me fluir em quaisquer sonhos, calidez receptiva, coração voluntário, indomado. Tenho qualquer mansidão em relação ao futuro, porque sou inteira presente, e meu presente pode ser sonho, sonhos de completude. Na verdade: aflição de ser terra em meio às águas. Mas, por saber-me destoante, é que sei que me devo ser fiel. Obstinação ou confiança? A inutilidade da mobília, a pouca importância das adornações, a prolixidade. O supérfluo, os longuíssimos-prazos, a vida dividida de fastio que eu não quero ter. A rigidez suprema, a distração imperativa, a fuga perpétua, a aparência velada. Que eu só me gaste e nunca me esgote, entregue em cada ato e sentimento. Porque me vejo assim, ser vivente simples, apartado e destituído, dissoluto em cada coisa vista, sem nada ter, e tudo conter, pela expansividade do sentir que me rege. Coisas são coisas e o que eu quero é vida.
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