quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A leveza e o peso

Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora. / O primeiro pensamento dela foi: ele voltara por sua causa. Por sua causa, havia mudado de destino. Agora, não era mais ele o responsável por ela; de agora em diante, ela era responsável por ele. Aquela responsabilidade lhe parecia acima de suas forças. (...) Não, não era superstição, era o senso de beleza, que de repente a libertava da angústia e a enchia de um desejo renovado de viver. Mais uma vez, os pássaros dos acasos haviam pousado nos seus ombros. Tinha lágrimas nos olhos e estava infinitamente feliz por ouvi-lo respirar ao seu lado. / Já a havia encontrado desvendada. Fizera amor com ela sem ter tido tempo para apanhar o bisturi imaginário com que abria o corpo prostrado do mundo. (...) A história de amor começara depois: ela tivera febre e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras mulheres. Ajoelhado à sua cabeceira, ocorrera-lhe a idéia de que ela lhe fora enviada numa cesta pelo rio. Já disse que as metáforas são perigosas. O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no instante em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética. / O tempo humano não gira em círculos, mas avança em linha reta. É por isso que o homem não pode ser feliz, porque a felicidade é o desejo de repetição.

Milan Kundera

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