Te mandaria flores, se assim pudesse bastar. Te mandaria flores, para não ver o vermelho torcer para fora do teu rosto, para não secar de tanto torcer vermelho para fora de mim, sal molhado na boca. Mandaria flores, desbravaria cavernas e montanhas, exploraria funduras e alturas inarredáveis, comporia dos roteiros o maior encanto, luz amena, colcha de retalhos, mochila nas costas, louça na pia, se velas pernoitadas, janela esquecida aberta, roupas pelo chão, e pilhas de livros dobrados de uso, água corrente, horizontes, e flor, fixaria o tempo; te deixaria, inclusive, veria esvair-se a sombra, para não mais me olhar, se assim pudesse bastar, se assim ressoasse, mesmo distante, a tua liberdade de alma. Que eu quereria comigo. Mandaria flores, se eu não fosse tanto a mulher acesa por ti. Para não dizer que tenho um mundo na palma, feito ramalhete arrematado pulsando firme entre as duas mãos, quando me molha o teu olhar de pura água. Para não dizer que sento escorrendo à beira neste topo de mundo, aprumada e paralítica, às vezes porque desabrocho um quanto docemente dos teus lábios-dedos-olhos repousando, propagando, fazendo mistura na pele. Tanto sei o ponto onde amar acaba, como nunca o vi tão nítido: pois meu ponto é o inverso simétrico. De te amar, virei flor. E flor da pele. Te mandaria flores, mas te entrego em gesto, peito aberto, como doutras vezes em mãos trêmulas, o mais tenro de mim, verdade de mim, meu próprio hábito que agora é amor. Em troca, leva a flor. Leva, junto a ti, põe bonita num vaso à escrivaninha com tua liberdade de alma. Vê como tudo fica bem. Ao menos, mais doce?
Nenhum comentário:
Postar um comentário