Que assim seja. Que eu seja. Estou sendo assim e não sou capaz nem de ao menos intencionar estar sendo outra coisa, tamanha a gravidade deste estado tão letárgico. Tem-se tratado tão mal e com tamanha condenação a mentira, que quase me sinto incumbida de defendê-la, por assim dizer, afinal, sob minha perspectiva, ela tem-se apresentado subserviente em tantas ocasiões, e constituído eficiente meio de defesa e de poupança. Sinto-me mentir, e é quase natural, quase um ato instintivo, herdado de sabedoria nata de espécie. E parece árduo submeter-me ao juízo comum de rejeitar a mentira, como se a fosse trair. Haverá os que dirão que ela peca ao fazer padecer os que por ela forem ludibriados. Pois, sobretudo, minto mais a mim mesma, direcionando o dano todo à minha própria pessoa, e menos a outrem. Nesse caso, quem, munido de justificativa plausível, poderia impedir-me de me infligir algum mal? Uma mentira pode às vezes ser mais fiel que uma correspondente verdade. A tentação de mentir e a potência da mentira: há quase lascívia na forma como sou compelida a sucumbir. Mas há de ser dito também que, à revelia de tudo que já disse, eu sofro mesmo com a mentira, a irrealidade, a dissimulação. Porque a culpa há de decompor-me toda, como um ser indigno do que muito benevolamente me é oferecido, indigno do que muito idoneamente eu seria capaz de realizar por minha própria conta, e recuso, e fraquejo, e acabo revelando-me ingrata pecadora, sentindo-me solitária na presença dos outros. Talvez eu sinta falta de mim mesma, que não sei onde está, que não sei onde estou. Sinto uma solidão que provoca em mim repúdio da minha própria presença, como explicar? Estou indefensa em relação ao que se passa à volta, que me parece de todo ininteligível, e submissa àquilo que a vida ordena que me suceda. Mas será mesmo que a vida está fora de meu controle? Cria-se uma mentira por acreditar-se que a realidade não basta, por negação, por receio das conseqüências dessa realidade mesma, ou seja, falta de confiança em sua própria conduta, por excesso de escrúpulo, não ausência do mesmo. Estou me fazendo entender? Mente-se a si mesmo para poupar-se de angústias agudas, para poupar-se tempo ou eximir-se, por desinteresse em medir a dimensão do fracasso, da frustração súbita ou enraizada. A mentira é um medo. A mentira é a crença de que se tenha feito ou se esteja fazendo algo de muito incorreto, muito censurável. Aguda fraqueza. Penso que seja muito razoável adotar uma conduta que poupe a si de reprimendas, e poupança é do feitio da mentira. Haverá os que dirão que basta adotar então a conduta que não lhe pareça criminosa e que não instigue a insurreição do grande medo, postura a qual tornaria a mentira desnecessária – se é que já não o fora antes. A esses eu diria simplesmente que a mentira é muito mais engenhosa do que jamais poderíamos ter a ambição de ser, de forma que é também utópico e pretensioso crer em nossa capacidade de dispensá-la sem que haja um custo. Não é simples lutar contra a própria natureza, e uma natureza pode pecar. Não que a mentira seja o caminho natural mais dócil ou fluido, pois invariavelmente traz inclusa vasta gama de novos impossíveis embates; ela é apenas um caminho natural, e também o que mais tende ao martírio, pelo qual o ser tem desmedido fascínio. Sentir-se padecer com orgulho: não o fazemos todos, como grandes tolos, em silêncio, exibindo-nos a nós mesmos? Pois isso também é uma mentira, e sofrível. Mentir é sofrível e irresistível. Dissimulo tranqüilidade, mas bem dentro de minha profundeza penso nele, no outro, nela, na outra, naquilo em que não se deve pensar, sem nem ao menos saber explicar por quê. Talvez eu necessite de um conflito existencial para consistir de formas possíveis. Talvez eu esteja apenas buscando desesperadamente uma tensão, uma pungente aflição interna, no intuito de sentir-me deveras viva novamente, eu que vivia em busca desta paz celestial que me tem sido oferecida agora, agora não a quero: não a aceito como se apresenta, agora tenho repúdio. Não sei ostentá-la e agora estou no anseio pelo que quer que não seja, se me fosse possível ser. Será que é devida esta constante insatisfação? Será justificável? Caso não seja, ter-se-á, ainda, a mentira, servil e dolente, preservativa, tentadora. Seu abuso, porém, implica que se atinja a camada proibida, aquela que revela o vão de todo o processo. É um desfalecimento. Mentir para si revela-se inexeqüível, ainda que permaneça imprescindível. E dói ocupar-me de pensamentos dele, o proibido, dela, a proibida, cativa de meus devaneios impróprios que, quando raro me escapam da rotina consciente, invadem-me os sonhos, cavando e perpetrando seu caminho nas profundezas do meu inconsciente. De lá não podem ser expelidos. Fico sendo este complexo de impertinentes pensamentos. Como explicar minha lamentável incapacidade de relacionar-me à realidade tangível? Como explicar minha lamentável falta de resistência para com os escombros tentadores do passado e da memória e da potência de minha mente? Por que este fascínio pela introspecção e pela total deficiência de conexão com a realidade? Por que esta condição de tempestuosidade? Saber que se veio a algum fim – porque senão não haveria fim em viver; não saber, todavia, qual fim seria. Fica-se à espera inútil do acontecimento compassivo, exorável, a salvação, um reconhecimento que seja da vida quanto ao valor que se deseja ter, ou ao valor que se deseja que ela tenha. E tal valor, em cuja existência e dimensão somente se acredita quando manifestadas por outrem, esse nem mesmo é compreendido: trata-se de conceito muito nômade, muito anônimo. E fico a contemplar o nada, novamente absorta em divagações intransitáveis, dialéticas, que são o diagnóstico de minha exigüidade. Não se muda e não se aprende: a evolução que por tanto tempo procurei convencer-me de ter realizado é ilusória. Vejo que sou a mesma, não mais que a mesma unidade de deficiências dispostas em torno de uma mente fértil demais, fértil e, todavia, inútil. Abundante e, todavia, inóspita. (03.04.10)
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