quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Procedência

Eu quero a minha mãe. Eu a quero, sou somente um pedaço destituído de mim. Eu a quero como se toda a minha vida fosse limitada a uma busca por uma face amiga, aos prantos, através das ruas loucas e infinitas de um país alheio, longínquo e irreconhecível. (Queria saber falar a língua da vida.) Eu a quero com tal inocência, tal infantilidade, que me submeto ao óbvio e simplório, porque sabem sim falar ao coração. Eu estranho a sua ausência, embora devesse, após tantos anos, estar a ela acostumada. Uma independência incumbida a mim cedo demais, que eu quisera não ter tido. Precocemente me foi impingido o fardo de me ser, já aquilo que eu seria sempre. (Queria ter podido descobrir o que eu seria.) Já alguma vez me pus a calcular toda a reconfiguração do transcurso de minha vida caso ela aqui estivesse ou houvesse estado, e a certeza da diversidade é devastadora. Nessa hipótese inconcebível, aquilo que eu acabaria me tornando seria tão fatalmente irreconhecível se posto em comparação àquilo que de fato acabei sendo, tanto que me assusto comigo. (Queria não pensar no “e se”.) O que sou é muito pouco. Relaciono-me com a ausência de minha mãe da seguinte forma: como um direito que se tem, ou se deveria ter tido, porém se perde, sem meios para reivindicá-lo. E relaciono a ela tudo que de falho existe em minha vida, agravando ainda as falhas atribuídas a meu pai, as quais, de forma imensurável, fizeram-se decisórias e inveteradas em minha virtude. Há de se culpar, talvez, a sociedade, pelo cultivo da bizarra noção de grave responsabilidade que aos pais cabe no que concernem os cuidados de um filho, tendo sido essa idéia a responsável por cativar-me e levar-me ao martírio em que me encontro, costurando rente à minha pele essa crença, em verdade insustentável, na condição incondicional do amor paterno. Mesmo que este não precisasse ser incondicional, quisera eu ter acreditado alguma vez me adequar às condições mais favoráveis à aceitação, quisera ter proporcionado o ambiente menos inóspito, um que me pudesse salvar. Ou talvez seja mesmo minha a responsabilidade, ou mesmo a culpa. Não sei, mas, pelo que aprendi da coerção da vida, da relação que existe entre ceder e impor, adquiri essa aspiração por algo que me parece devido, algo que não tenho, algo que eu deveria merecer. Meu trauma de aceitação. E todo sentimento que eu expressar pode (e provavelmente irá) se tornar diminuído, padronizável, vulgar, menosprezado, estando a vulgarização contida irremediavelmente no ato mesmo de expressar-me, em que se perde a impressão primeira que se teve e se tentou explicar. Jamais haverá palavras. (Um dia vou simplesmente parar de usá-las.) Mas, ao contrário do que comumente acredito, que eu deveria sempre ser trágica, na verdade eu aprendo. Quando o pai vier a conversar, à espera de que eu emita uma palavra fraca, a fim de condenar-me, agraciá-lo-ei com meu mais dedicado silêncio, e este, que poderá ser julgado obnóxio, será na verdade minha vitória de resistência. Quando o pai vier a atacar, pelo prazer de ver agonizar, negar-me-ei a fazê-lo, padecendo deveras mais com o esforço de dissimular meu sofrimento. (Mas me poupando da humilhação que é irmã deste.) Quando o pai abandonar-me à minha própria sorte, sem conselho ou fundamento, farei melhor à minha custa, sem emitir a mais tímida solicitação de auxílio, que eu compreendo como uma reivindicação, à revelia do conflito provocado por essa crença. Quando o pai punir-me pela inocência com palavras malditas, carregadas de uma impureza incurável de corpo e alma, serei oclusiva para com o mundo, bastarei a mim em meu interior de pura calma etérea, imune a violações dessa natureza. Todavia, não. Não me cabem tais atos. Quando vem a mim o pai, eu acabo. Nada valem minhas constatações e intenções, pois se perdem no ar perante a simples menção de determinação do pai. Eu sou sozinha. Se a mãe ousar condenar-me também, apesar da incontestável fragilidade costurada à minha face, ponho-me ainda menor, se assim possível for, extinguindo-me no ar junto às minhas palavras, inúteis. Pergunto-me se nos outros é também assim tão percussiva a ação paterna ou materna. (Não ousaria pensar que sou a única.) E mesmo com isto quero ainda a minha mãe, pois nela vejo uma personificação da graça. Toda falha fere, mas eu perdôo fácil e leve, de tão pura que ela é, de tão humana que ela se deixa ser. Pois, apesar de enérgico, seu ataque não impõe dor, afinal, ela enxerga e assume sua responsabilidade de mãe, de tão mãe que é, e sua fala é como uma conquista feita em paz. Quando cessa a voz, o peito aperta e faz um apelo irrefreável por mais doçura, mais aceitação. Quando vem a mãe, eu sou filha. Eu me entendo por filha e me despejo voluntariamente no molde designado, quase sem questionar. (O que não me impede de refletir.) Não, se há um Deus, que este permita que eu me vá antes dela, não permita que eu fique sem sua existência, ao menos isso hei de sempre ter enquanto respirar, pois não sei suportar mais que uma distância. Deixe que eu a veja uma vez mais, ó céus, e eu não hei de deixá-la, não acho que possa suportar outra despedida. Por que, se já foram tantas? Não deveria eu haver me aperfeiçoado na habilidade, pela prática? Se há um Deus, que ele permita que ela tenha a paz que merece, que eu não lhe pude dar. Eu quero a minha mãe como uma filha, a filha que sou, e nada mais. Que me entendam mães e filhas. A ameaça que me impõe o amor que tenho por ela é apenas de que eu não saiba sem ela viver. (Original abril, 2010. Reescrito.)

Nenhum comentário:

Postar um comentário