terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Manhãs

É noite injusta. Minha inaptidão ao ato de adormecer me atinge já o limite do suportável. Não é falta de sono, nem de cansaço. Mas uma tal inquietude que nem chega a ser de pensamento, que os tenho em grande número e intensidade, fique claro, e tenho, contudo, em meu domínio a arte de subjugá-los. Estou só e a noite é minha, mas por que a quereria? Se eu te vejo e é quase nunca, quase sempre em alguma manhã, mas tu estás a dormir enquanto penso em ti na minha lucidez afogada? Pensar em ti é uma impropriedade minha de cuja realidade tu jamais deverás ter conhecimento. Ah, mas o teu conhecimento é tudo o que eu quero. Quero o teu reconhecimento, tu buscando o mistério em mim. Mas, enquanto eu dormir, tu estarás acordado, e eu não terei conhecimento de ti, e todos estes dias, em que não habitas meus olhos cobiçosos, são também isentos da espontaneidade encantadora de ti, e isentos de uma parte tão idônea e desejável de mim a qual aflora para ti apenas, e, ao passarem, tais dias deixam mais profunda em mim a ausência de esperança. Então não espero mais, porém te quero ainda, e à revelia da prudência ainda esmero ter qualquer visão tua na manhã, que a procuro até na noite, sem precisar de qualquer sentido, nem de pensar muito a respeito. Quase me é natural. Quase, mas não me é natural estar em tua presença, e tampouco o é estar a todo tempo contigo no pensamento. Chega a dar em mim sensação corpórea da atividade de um estranho parasita na cabeça, muito embora tu sejas um escândalo de êxtase, meu êxtase confuso, inobliterável, inatingível. Se eu te vi e foi uma graça, foi também a condenação. Enquanto escrevo, tu estás a viver sob outra perspectiva, num outro patamar de existência, tão distante e a um intervalo psicológico tão profundo de meu ser que realmente dou caso à dúvida acerca de minha coerência, posto que me esteja tanto ocupando de acatar com a paciência inútil de, sem esperar, esperar-te. Esperar o quê? Esperar manhãs em que se choquem e se ocupem uma da outra as nossas paralelas existências, por um instante sequer. Mas me calo, que sempre hei de culpar-me pelo desejo que me ocupa agora, é verdade, embora sejas tu o responsável pela origem de qualquer intenção minha, e por mais do que apenas minha vontade de manhãs.  (01.05.2010)

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