Que belo dia para amar. No intransitivo. Quando abre a chuva e fecha a luz, amo. Quando seca a água, e molha cor no ar do céu, amo. Quando a estrada à frente é só espaço, vento, transcendência livre. Quando o dia sorri sozinho. Quando eu me sinto bem-vinda. Quando eu sinto as teias todas, redes se emaranhando firmes em minha mente. Quando é perspectiva. Quando não há fome, porque tenho medo de pensar o futuro. Quando sei que serei feliz. Quando quase me sinto chegando. Quando sei dos outros, sei-os sorrindo, sei-os livres. Amo-os, deixando-os. Quando fecho os olhos, amo. Quando me sei existente, pessoa una, pessoa inteira, quando caminho pelo universo dentro de olhos fechados, quando persigo, quando transmuto um gesto, quando sinto vibrar e sonhar o universo mesmo através de mim. Abrindo os olhos, respirando mundo, encontro. Amo. Quando alguém vai embora, amo. Quando me percebo falível. Amo. Quando percebo todas as linhas tortas. E ecoa um som quase ficcional. Que deve vir de dentro da alma. Quando me sei inteiramente separada, e, justamente porque separada, unida a tudo. Parte dissoluta no todo da vida. Natureza. Quando me sei viva, animal. Quando me sei pensante de ares inobteníveis. Quando vejo fragmento de tudo em todas as coisas, insustentabilíssima leveza em cada detalhe, tudo ao mesmo tempo, temporalidades, acasos, queda, nó, conexão. Quando me sei póstuma, modificada, sobrevivente, lutadora, cintilante, íntegra, e sempre liminar. Simplicidade. Vazio. Não há escuro na alma neste instante. Quando me sei beleza, porque amo: amo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário