Era assim tão escuro, que eu nem aceitaria chamar de azul. Mas era meio marinho, talvez porque eu estivesse mergulhando. Ofegante, ritmo disparado do eco dos teus sons nos meus braços abertos. Eu só não queria ter que te ver de partida. Que este amor só me veja de chegada? Que este amor não me fale das semanas que se estiram no tempo. Que os dias entre as nossas poças d'água não me façam desaguar em descompasso. Porque, enquanto olhava, eu estava azul. De calmaria e sargaço. Teus ruídos, a marcha da tua voz compassada, os verbos caindo sobre mim feito onda. Se partisses, eu saberia eterno o movimento dos teus quadris. Eu sentiria enterrados os movimentos das tuas mãos. Teria sido tão bom quanto qualquer dia. E eu não ouviria teus lamentos, tuas insensíveis considerações. Mas eu olhava, e era tudo vermelho, agudo, obscuro; antes dos olhos, foi um arrepio de alma o que me fez saber-te trêmulo, extremado: olhei, e era mesmo, como se a palavra na tua boca de fonte estivesse assim prestes a despejar em mim um peso enorme, uma nova violência, um escabroso temor de eras irreversíveis. Aí, quando te vi inteiro, dando-me a mão a segurar diante do abismo, senti-me tua como nunca: assustada, na excelência da palavra, mas assustada com a minha falta de susto. Reflexo que eu via. Do azul ao negro, eras escarlate, escancarado no meu colo, vibrando minhas veias caladas. Então, calaste também. Ponte desfeita, retornaste ao alvíssimo, inacessível e distraído. Se eu te pudesse beber até à última gota, para que não mais te afogasses no que falta dizer. Se eu te pudesse ser luz. Se eu te pudesse pedir que ficasses. Sem aviso prévio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário