terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Ato de exultação

Quando vejo, aprendi contigo. Qualquer pedaço meu adormecido, soterrado, de repente trazido à vida. De repente, vejo que são fragmentos de penas e glórias minhas já sentidas, estilhaçadas, perdidas, reunidas, aqui postas ao lado das tuas. Ouço qualquer som que me parece vir de dentro, mas é só teu canto de homem simples. E, por seres a mim novo, és quase nostálgico e antigo, de uma elegância autóctone. Sinto qualquer vibração alvoroçante, que me invade por trás, ventre, quadril, pescoço, e deita por toda a minha pele uma camada de temperatura, densidade, hormônio: arrepios. Fecho os olhos, para ver-te na escuridão que persigo a caminho de ti. Aqui, estou protegida. Imune a tudo que não vejo; e tu, sabendo, cerras infindo o que eu queria ver; tu, também quase não vendo, mas vendo mais; tu, à meia-luz, és choque térmico a cada derramar de olhos. Que os meus incontidos brados se façam ouvir em teus silêncios. E a vagareza dos teus movimentos conduzir-me-á àquelas montanhas nunca nem imaginadas. Porque também a tua urgência enterrada no meu seio far-se-á meu novo ânimo, minha recomposição, história sazonal de outras formas de ver. Que a paixão me afaste do pensar as coisas, e que eu veja no horizonte todo o sentido de fazer-me tua; que eu aceite o não ser livre, avesso reflexivo de ti, mordaz na tua liberdade ininterferível, e possa logo compor meus próprios sons. De repente, eu preciso me aceitar, aceitar minha brandura, transigir, entregar-me, estirar-me toda nesta impressão viva, aquiescer-me toda nesta tênue e aguda inclinação, que me toca sempre no sótão das palavras mornas e na varanda das terminações nervosas, ardentemente, consciência plena de habitar um plano outro. Será, será que posso dizer, dizer de haver-me transportado, por ti, a qualquer vislumbre de mundo novo, irresistível fluidez. Em que me encontro pura e transformada, reflexo do querer ser, peito aberto, debulhar de ondas no meu coração que foi aos ares em chamas. Evento que se me apresente fora de categoria, comprometendo em sopro a estrutura. Que sentido dar a teus ventos, proximidade e distância? Que eu nunca fale medo, mas respeito. Ecos, oceanos inteiros em concha, teus ouvidos que deixem mergulhar minhas dores, meus ouvidos que peçam por receber teus prazeres, todo um corpo que se molde para aconchegar o teu. Fim.

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