Ah, meu abismo descontínuo. Persistências. Metáforas que venham só para colher-me, flor desbotada pela raiz. Seiva bruta. A dele, elaborada, escorre por entre meus dedos enquanto eu teço meus pensamentos de mel, densos como galhos secos e folhas de árvores ao vento. Contíguos espaços de peso entre as levezas que me carregam e inflam, oscilatórias, ao colo do céu. Deito-me em ânsias, hinos antigos, morte para todas as vozes da queda, país de silêncios e escuros, em que meu sussurrar é todo o brilho, dissonante, em que os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. Tudo o que ouço, tudo o que vejo: faz-me agudo o não-dito, impronunciável, o não-visto, incomponível. Arde na pele o que não me toca, distantemente atado a qualquer rastro das minhas partes solitárias. E os ditos e vistos se fazem passo, corrente, de ferro e ar. Faço-me a corda bamba entre o medo mortal e o êxtase excessivo. E, com aquela tímida dignidade, enfrento o que está além das minhas possibilidades. Além do ponto crítico, extremo dos in-tremos, sei-me inteira transparente. Mas fortaleza. Respeito, e nunca medo. Meu acesso menor, porto seguro, é meu salto através do espelho. Porque é vôo. Que ele não se engane pelas partes limítrofes, ah, as minhas, tão mastigadas. Ah, domínio conexo. Não hei de contar as cicatrizes. Erro o salto, desvio e estatelo na brancura violenta. Ergo-me, vendo vermelho, e o novo salto não tem menos glória. Por um menos que faz mais. Por um êxtase que me sucumba a vista, conduzindo-me a crer, fé, que ouço de fora, no fundo mesmo não é mais que coragem. Lembro: irei morrer. Agora: a vida; brancura, melodia, suavidade.
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