terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Da paixão singela

Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta
Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra.
Hilda Hilst

Singelo (latim tardio singellus, diminutivo de singulus, -a, -um, único, só, singular) adj.
1. Inocente; puro. 2. Simples. 3. Não reforçado. 4. Sincero; lhano; desataviado. 5. Não dobrado. 6. Delgado. 7. Natural. 8. Único; só.

E eu flutuo, sim, neste mar que é teu. Pois prende em mim esta ressaca, fadiga de horas noturnas passadas contra a corrente. Onda vem, e me arrasta longe, sem ver mais terra, infinitude de céu que se deita sobre água e mais água de puro verde de dentro pra fora, de dentro pra fora um tom aterrado, que é para eu me lembrar de ser terrestre. Vôos altos para que eu caia bem no fundo deste meu azul contra o teu verde. Que meu azul, de alma, é preto nos teus olhos. Esverdeados. Cor de quem vem para encher de água e sal uma tela outrora em branco, seca, carregada de vácuo. De repente, as cores importam. O traço, a forma, a impressão, o gesto do pincel são todo meu objeto de desejo. O sal escorre em minha alma. Se eu decidir repousar em pedra, de repente já não posso. A brisa traz um aroma teu de marinheiro, como navegas no meu corpo. Uma coisa leva à outra, e de repente sou ilha. Toda ressaca dolorida e desvairada. Que me baixa a pressão e de repente eu sou pr'aonde a dança das ondas levar. E como me levas contigo sem nem saber, faço canto da partida, luares que me embebem toda, de um espaço que antes ocupaste, e que agora é pura espuma de sal que sobe ao ar. Não respiro. Toda a brancura pesa no meu peito como a preencher-me de som: som branco de ventos uivando para me ninar, depois do ataque cardíaco. De repente, vira onda e eu descompasso, virando errado, ao avesso, topando coral, deslize em buraco, concha corta os ouvidos, limo sobe os pés, mãos tateiam sem nada, e é água, água, turva, turbilhão, escuro, imensidade sem fim. Tudo em meu olhar esverdeia como em incêndio semovente. Debato-me; arrebato-me. Cedo. E é caindo ao fundo que sinto bem a tua pele arranhar-me como água das mais mornas, tenras e mansas, bem latejando na superfície de todas as coisas que não acabaram. Não acabou, e continua. O presente me afoga inteira, e é assim que te sei inteiro, puxando-me junto a ti, debaixo d'água. De nada adiantaria respirar. Sou toda o fôlego que me roubaste, todo o espaço que percorres, os novos aromas que fazes brotar assim em flor, no meio do meu oceano. E é assim que, sem ver terra, feita de mar e água, queimando suave, estou por ti liberta.

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