Quarto, vazio e escuro. Para que quartos e salas e ambientes fechados? Eu sempre preferiria amplos espaços abertos onde o limite é o meu olhar ou meu pouco comedido vagar em devaneios, fecho os olhos e sou também o horizonte. Meu quarto vazio e escuro, repleto de um denso pesar, que paira no ar estagnado preenchendo minha percepção com lucidez, numa imposição acostumada. Para mim a lucidez sempre fora um hábito. Pesa uma solidão lamentável, mas conformada, serena até. Isenta daquilo que fundamentasse uma reclamação, atenho-me àquilo que naturalmente me é disponível, perdida em meio a sons e sonhos quaisquer, daqueles que preenchem talvez quase satisfatoriamente a mente inquieta, porém não o suficiente para que lograssem aquietar o espírito, nem o ávido corpo, embora este se manifeste recluso e pacificado – a omissão. A verdade dura é que eu sou quase nada nesta noite inútil de domingo, e na maioria dos tempos de qualquer dia, mesmo porque falar de domingo nada significa, nem justifica. Que é um dia em uma semana, em comparação a toda uma vida? O céu vai cedendo ao escuro com crescente complacência ao passar dos segundos, como se me desafiasse a impedi-lo ou a enveredar por qualquer tentativa de acompanhar o tempo, fazê-lo útil, ou sequer meu. O tempo não é meu para dar, e o tempo não é meu para subjugar, e nem tal vã declaração detém qualquer sentido, considerando que não é de meu interesse dominar coisa alguma, nem ter posse de nada. Queria ser, em vez de ter coisa alguma. Eu cedo à ignorância na mesma medida, pálida, oca, inexpressiva, de forma a não expressar à minha própria companhia o vazio interior, uma vez que se trata de esforço inútil. O nome é inutilidade. É tempo de esperar por algo, um algo que complete e realize, que leve a realizar. É tempo de considerar o pretérito e dele abdicar, renunciando às fraquezas anteriores, impondo a si a aprendizagem, ou dita sabedoria, adestrando a arte de merecê-la. É tempo de abandonar o hábito miserável de perder tempo. Tempo de ousar no cultivo da pretensão de viver, o que não estou levando à prática. Estou na prática para a prática. Plenamente ciente de quem vim sendo e daquilo que importa, estou pura e ávida por praticar e executar o que seja útil. Minha avidez por descobrir os horizontes de mim é quase imperceptível em minha vivência tímida e receosa. Apesar de parecer nula a perspectiva do menor indício de mudança, a impressão da expectativa persiste, mais como uma idéia submissa a um devaneio o qual, por mais fantasioso que seja, deu-me mais propósito e tendência ao aperfeiçoamento que qualquer realidade até hoje conhecida. O ar continua ofensivamente estagnado, quase moribundo, mas eu agradeço por não haver uma voz inimiga para perturbá-lo, a qual me salvaria do preterido ócio para condenar-me ao desespero. Escolho a solidão. (Algum domingo.)
Oi Raquel,
ResponderExcluirBravo! Tua expressão convence.
" O tempo não é meu para dar, e o tempo não é meu para subjugar, e nem tal vã declaração detém qualquer sentido, considerando que não é de meu interesse dominar coisa alguma, nem ter posse de nada. Queria ser, em vez de ter coisa alguma"
Palmas!
Um abraço!