E pretendes não gostar de nada.
Se te distrais, é glória: de repente estás gostando. Agitas-te, sublevas-te, e
soltas assim no ar um pó de encantamento. E tudo vibra em mim. Vagueias,
inundas teu espaço, miras, se é soslaio, se é distração animada, não chego
nunca a descobrir, se és absorto, conjuras qual pensamento à luz do meu tremor,
sou temerosa, denso corpo a contrastar com teu ânimo, és quase dançarino, do
jeito que não te acomodas, porque se calha, se te repousas, se me condenas a
qualquer esmero de quietude, sou curiosa, valente amante, curvo e me debruço,
quero despertar-te todo, atiçar qualquer desejo, a ver se voltas a me
investigar, a ver se enxergo nas tuas profundezas indecifráveis, críptico, só
pode ser caverna, é boca de morcego, estou certa disto, cordura ou crueldade,
espio para dentro do teu sorriso que me devora, e é fulgor de todas as máscaras
que eu pudesse conceber, milhões de muros que eu erguesse em torno de mim
quando a luta contínua é só chegar-te ao outro lado, invadir território, como
me fazes ao olhar-me assim, ao desolhar-me assim, ao ser assim o distraído
esforço que destilas no meu corpo. Quando queiras. Fecho-me, sem ver-te, e é
mão na boca para que eu me impeça de conjurar-me no grito, apossar-me da
liberação, ter-me tão retida na tua força, compressa no teu peso, ardente no
teu fogo, que eu me vire, desdobre, desfaça, desapegue, deixe de sonhar, para
ver estrelas na tua cara, queimar-me e dissolver-me no teu canto, canto
inaudito que fazes por dente em minha pele, perfurando, centímetro a
centímetro, segundo a segundo, virando minuto e metro, que dança fazes sobre
mim, se calha é coreografia, que pensas como se me conhecesse, enquanto só me
descobres, aos poucos como deve ser, e se me ergues, se me guardas, se me
evocas, se me tomas inteira, regozijas, já renasces, recobres-me de todos os
beijos, urgência, violas-me, fazes-me esquecida, pernoitada, avessa, exausta e
esbaforida, tenra, mastigada, saciada, fazes-me nova, surpreendida, atada e
colhida, anti-hermética, melíflua. Palco para que componhas teus passos de
feiticeiro, para que aduzas teus detalhes, é o que sou, despindo-me, disponho a
ser o que fizeres de mim, que mais que espectadora, eu te exprimo,
experimento-te, danço contigo, acanhada, abocanhada, sequiosa por teu líquido,
tua fonte de oblíquo, ângulo extremo, choque bem-vindo, eletricidade, e me vais
guiando, pelo torto que é o teu desejo, pela torta palavra que é a minha, pela
avidez que é palavra de ordem, meu canto que da suavidade morna vai ao
estridente mais agudo, minha acuidade de sensações, hipersensibilidade,
hipertrofia da minha resistência, não resisto, não me abalo, não persigo, mas
recebo, sou toda derretida na tua penetrabilidade, vivaz na tua austeridade
elegante, se és sério, se és louco, se és escárnio, já não busco, és o retrato
perpétuo da minha vontade agora, berrante oposto de minhas quedas. Se calhas
fazer-me cair por ti, é tua ventura. Pois cai a mim também, sem ver ponte nem
nada, sem abismo, sem falha, a pergunta impossível, a resposta velada. Cai,
cola-te em meu corpo, vê em mim o que é cego, atenta-te bem para o que a boca
grita sem dizer. Chega-te inquiridor, mas quase sem ouvir-me, dize, sem pesar a
palavra, sem parede no meio, quero atravessar-te, sem fulminação, mas morna,
suave, pronta a colher teu conflito noturno, que é minha paz de alvorada.
Alvoroço-me toda, que fico inquieta, sublime, desperta, atônita, besta, à flor
de todos os sentidos, cinco e uns tantos que crias ao pousar em mim tuas mãos
de asa. Vôos altos, quedas tanto maiores, ar, vento, frescor, o teu rubor e o
meu viço, o afago preciso que me faça composição aeroterrestre, amortecida,
sorvida, pacificada, ternura crua, cozida. Levada sou, porque me levas. Repouso
dentro dos teus olhos, desabrochada, declinada, descarregada, desfeita, feita
no nó que de repente me ata a ti, desato, desato a cobrir-me de brandura e
serenidade, consciência plena, que me sussurra insinuante em outro nível,
abafado, inamovível, curto, direto, penetrante, inegável: gosto de ti.
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