O que significa dar certo? O que
significa ser bom? É não doer? É não pesar? Que pese, que enleve, que doa
muito, doa, dói porque é real – tão real. Pesa, porque importa. Afeta. Porque é
afeto. Sejamos crus aqui, transparentes. Pois que dura um efeito. Percuciência.
O que significa dar certo? É futuro? É certeza? Comprometimento? Doação?
Sinceridade? Aceitação plena? Pois que nos submerjamos ao âmago da questão.
Falemos do cru e tenro da relação humana, todo o meu objeto, todo o meu
escrutínio, todo o meu enigma, toda a minha perdição, e toda a minha fortuna. É
aqui que se prospera. Pelo amor de Deus: o ser humano é social. Você não existe
em sua própria medida. Por favor. Entenda isto. O que falo só existe porque
alguém me lê, e só foi escrito porque alguém me existiu. Quando me existem, e
eu existo os outros, vem alguma coisa. Pensamentos, idéias, crescimentos,
devastações, agudo contato com o íntimo ainda que mais periférico de alguém.
Pontes. O que significa dar certo? Mutualismo. Aquela relação bilateral. Se não
é unilateral, é boa. Que doa. Que pese. Que enleve. Que faça reinar a
estupidez, assim de vez em quando. Que faça reinar qualquer jovialidade. Coisa
de ver o dia belo, de ver nas coisas as cores. Está nos olhos de quem vê. Vejo
porque me fizeram vista. E como estava a ansiar. O efeito dura, há de durar.
Sou fácil vivente. Agrado-me com gloriosa facilidade. E viverei. Social. O que
significa dar certo? Reciprocidade. A ponte não é unívoca. Bate e volta e bate
voltando. Qualquer sensação de reciprocidade constrói aquela ponte. E a
reciprocidade pode ser de qualquer coisa. Ponte feita, é sentimento. Dá certo.
É simples. Não, não é simples, porque é o mundo, é a base de tudo. Mas,
justamente por isso, é simples sim. Feito célula, unidade básica da "vida".
É a unidade fundamental da existência humana. O relacionar-se. É, é, é. Não nos
debatamos com esta verdade. Buscamos em tudo o contato. Um íntimo, um encontro.
E o encontro consigo fundamenta. Tem de ser-se um para falar em correspondência
a outro. E a fala, quando bate e volta e bate voltando... É dança. De
comunicabilidade. Clara e crua e nua. O conectar-se. Dar certo...? Romper um
abismo entre duas pessoas. O ser, incontentavelmente aflito por comunicação. O
ser, incontentavelmente faminto por verdades, ainda que seja para sentir
qualquer eco de confirmação da sua própria. E é apenas eco, mas também, a
existência inteira. Que se me apresente aquele que tiver plena certeza de si em
si por si. E que mo lo ensine. Sou eu, mas não me acabo. Isso não é defeito.
Sou eu, mas não me completo em mim. Busco a continuidade...
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