sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Desamor

Só eu não durmo
Pra te pensar.
E agora escura
Do jugo dos sentimentos
Irreversiva, suicida
Tateio aquele rochedo
Do ódio de desamar.
Hilda Hilst

Agora que não sinto amor, enxergo mesmo em outro nível. Toda a minha história paira na superfície dos meus atos e pensamentos, tranqüilidade de água morna, transparência, claridade. Agora que não sou amada, sei que o fora. Agora que não me é permitido amar, sei-o bem, tenho o profundo entendimento do ofício, sei amor como se fosse toda a minha arte. Agora que não tenho amor, penso amor como se respirasse. Agora que o amor não está em mim, estou nele. Submersa, quase afogada. E é amor para qualquer lado que eu olhe. Os trechos da minha história estão dispersos, úmidos, puídos no meu passo. Arrasto-me na terra, sorvo o ar, aflita por céus e vôos, queda, terra na boca, água em minhas narinas, saliva em meus ouvidos? Na boca, um gosto de ilusão, pó, desejo desfeito? Nada. Estou enterrada na pouca eternidade de ser, na pouca infinitude deste mar que é meu nicho, golfadas, lufadas, entrega pura, repressão, sufoco, cruel onda que me arrasta para dentro de mais desamor que eu aceito desaguar para dentro de mim e tomar conta, preencher, dominar. Agora que não posso pedir amor, invade-me uma falta, buraco de concha, sal nos olhos, areia descendo pela garganta, contendo o grito. Um amor que me permitisse medrar? É sonho, e já não quero sonhar.

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