Para me lembrar de que, um dia,
não tive esse medo-de-reação tão gritante e palpável, concreto, que me faz
assim companhia ao lado. Preciso estar em outro nível, em outro âmbito de
consciência, para interagir. Não: eu sou mais esquisita ainda. Como é que eu
vou explicar que só ele não me intimidava? Não: as pessoas são gentis, mas são
um enigma. E só ele eu era capaz de decifrar. Que nome dar a isso? Intimidade.
Vivíamos em naturalidade completa um em reação ao outro. E já não posso me
naturalizar com mais ninguém. O processo me dói, a invasão me fere, a
displicência, o não-dito, o cansaço? O abandono. Estou assim tão sozinha, que
mal me lembro de como era conhecer alguém, e ser um ponto central. Ah, de que
me valem os pontos periféricos que me fazem ser parcimoniosamente? Não, não
quero a dependência. Já a tive, e a sei bem: é dor demais para que alguém
deseje repeti-la. Mas a centralidade. Uma intimidade qualquer que não me doa tanto
também. Que não me faça desinteressante-interessada. Que não me faça questionar
toda e cada palavra, debater-me em dúvida e temor profundo de não ser
conhecida. Por que eu haveria de querer que me conhecessem? Pois ele conheceu,
conheceu e se foi; e eu o conheci, conheci e me fui! Sou hermética, esquisita,
cansativa, olho para baixo, tremo, viro um copo, uma garrafa inteira, olho de soslaio, quero sumir!
Por que fazem parecer tão fácil? Chegam, na naturalidade imbatível. Não:
sinto-me além de tudo. Vejo-o assim, e é a ponte inatravessável. Um abismo que
não tenho forças para transpor. Socorro, daqui do outro lado tenho alguma coisa
para dizer que não sei o quê. O que ele me deu é grande, importa, importa
muito, afeta alguma coisa. Quisera não me importar. O que ele faz existe,
existe grave, existe em alto relevo, existe em primeiro plano. Por quê? Porque
estou curiosa. Fome de atravessar a ponte. Quero tanto, que me precipito. E é
mesmo precipício lá embaixo. Sei-o bem: do outro lado me convida, mas às vezes
se impacienta. Vem ou não? Venha logo. Estou cansado. Não vou te buscar aí. E
tem outras pessoas à espera para atravessar, sabe? Não é caso raro nem
especial. Esse é o problema: faço da coisa um caso raro e especial, mas sou
apenas uma noite, um segredo, uma carta, uma cama, um deslize, um passado
curto, um fragmento, um poema morto, uma impertinência, céu nublado com chances
de chuva a qualquer hora. Não sei, estou atormentada ainda pela importância que
afinal não tive. Sozinha, sozinha, sozinha. Não estou infeliz: estou solitária. Sim: solta, perdida, vaga, desapropriada. Sem desprendimento também: solto-me de tudo para perceber que estou presa ainda ao nó mais central, mais fundamental – o meu medo. E aqui estou, sem a menor perspectiva de me tornar a companhia de alguém. Atada. Às vezes, eu sinto tanto a falta dele que parece que vou morrer. De novo. Sacudo-me, e há vida nova ainda. Desemboquei já em uma coisa outra. Rio e abismo e ponte caída lá embaixo, ainda. Fracasso? Vitória?
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