Mas eu não sou comum, e aí reside toda a diferença do mundo. Busco uma forma discretamente única de me mover pelo espaço, traçando as rotas menos prováveis. E talvez minha intuição calhe falhar. Sinto-me tão livre. Tão livre, que chego a perder-me. Certamente, quando você existia, eu corria menos risco de vida. Está em todo o libertador-destrutivo que permeia minhas escolhas diárias, das mais simples às mais determinantes. Mas eu não sou sua responsabilidade. São, sim, as minhas escolhas. Toda a questão seria o quão livre de fato me encontro para fazê-las. Se, por um lado, seu laço comigo me atava à vida, atava-me também a um certo ângulo do mundo. Não sei, e sei-o bem: transito pelos ângulos mais variáveis, busco libertar-me de todas as amarras possíveis. Porque se me resta ainda esta amarra, que me abandonem todas as demais. Que tudo que um dia tenha feito sentido seja ressignificado. Então faço o que você desaprovaria, e também o que você sempre quis que eu fizesse. Passo mal só com o ver você nas coisas mais esdrúxulas, porque é delírio. Sofro sem razão de ser? Sou fatalista, eu diria. Penso em morrer amanhã sem que você nunca soubesse do tanto que aprendi. Penso em morrer amanhã sem nunca ter dado a alguém esse mundo todo que eu senti. Porque há qualquer espécie de desolamento nessas convivências rasas, nessa espera-que-se-pretende-inócua, nessa fome de viver que não passa. Há qualquer espécie de inquietação às quatro ou cinco da manhã, um resquício de embriaguez, uma mão que busca algo que apertar e afunda-se no travesseiro, o rímel que escorre, os copos d'água pelo quarto, o hálito da carne ainda em minha boca, o som da sua voz cumprimentando alguém bem ao meu lado. Há qualquer resignação em minhas pilhas de texto rabiscado, meu cheiro de biblioteca, minha pele morena de sol castigante, as unhas roídas, a mão que bate qualquer compasso musical, o peito arfando, uns abraços que eu colho por aí para me carregar pelo dia. Há qualquer fracasso em minhas conquistas, que mais parecem aquele presente todo embrulhado a la Clarice o qual não posso dá-lo a ninguém. Que lindo, que belo, que gesto, mas que patético. Só não mais patético que esta tola necessidade (ou é vontade?) de me fazer cativante para alguém. Já não suporto ser cativada. Parece que estampo qualquer tipo de título de alvo privilegiado aos ataques. Parem já! Eu amo você, e você não me atacava nunca. Eu falava da cabeça sem hesitação, e os nossos silêncios eram agrado, um som de universo. Sinto qualquer cheiro de banho, e sei-me assim, totalmente apaixonada. Seja lá quem você for, eu ainda o amo. E respeito (muito humilhada, confesso, mas sincera) profundamente a sua felicidade. Você se tornou para mim tão comum, tão distante, que eu quero ser comum e me distanciar de tudo isto também. Quem é que quer estas memórias? Sei que esperava ver em você mais que um mero homem, um mero menino atropelando os outros e seguindo suas vontades. Forço-me agora a ser mera menina atropelando tudo e sendo inconsequente. Isso tudo vejo com grande choque, porque não sou você e disso tenho qualquer orgulho inexplicável. Não fujo, mas canso-me já de enfrentar. Vamos dar as mãos, e me ignorar juntos? Imagine só, eu tentando sublimar a minha própria identidade. Seria renovação? Há qualquer dor aguda em minha barriga; enrolo-me toda feito bola e penso em corpo reproduzindo agonia sentimental. Que idéia simplória. Que sentido há em desejar o profundo?
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