domingo, 9 de setembro de 2012

Retração

Acordo só. O sonho me mata. A casa é vazia. Silêncio. E o desespero só não é maior do que se houvesse alguma companhia. Porque ele não vai voltar. Ninguém para assistir-me enquanto eu copiosamente vivo, pedindo assim esmola à vida. Vida, dai-me uma graça. Eu mato o dia. Sou a dama da noite. Faço-me boba, faço-me leve. Faço-me mais silenciosa ainda. O que dizer, que já não se tenha dito? Quando eu digo, sou desdita, desditosa! Minhas palavras se tornam desdéns. Recolho-me. Prendo-me aos últimos segundos desse meu reino noturno, o ar de promessa e de completo desolamento, abraçados, confundidos, indistinguíveis. Súbito, o canto de pássaros me rompe o isolamento acústico de existir. É a pincelada rosa no horizonte, é a entrega vestida de desistência. Estou desistida. Um conjunto meio desconexo de pequenos atos compulsivo-impulsivos, uma fuga estéril para longe de tudo, como se eu corresse obstinada em uma esteira ergométrica de arrependimento e vacilação. Mas se o destino é nunca chegar a nada, apenas me distanciar do tudo? O tudo, que é a vida dele atingindo os lugares mais elevados, e a mesma platéia que o aplaude é aquela que desdenha de mim, meu rumo modesto e reservado direto às sombras da luz que ele exala. Mudo uma cadeira de lugar. Troco os livros de ordem na estante. Desfaço-me de pilhas de roupas. Fecho as cortinas de um jeito estranho. Alterno o lado de dormir na cama. Abandono um artista, descubro outro. Arrisco-me em novas comidas. Tento uma rota alternativa para o destino de sempre. Humildemente tento espalhar alguma mudança pelos fragmentos da minha existência. Humildemente peço à vida uma graça, uma licença, um intervalo outro, um estado de espírito qualquer, qualquer espaço, qualquer som, um ar e cheiro que me arranhem a garganta, a dor que me penetre, qualquer luz que me queime as retinas, qualquer poema que me seja outra instância, outra vivência, persona, identidade, pois que ele me foi a composição de pessoa, pois que cresci com ele, mudei com ele, mudei por ele, tenho-o entranhado em todos os meus caminhos anteriores; então como explicar que eu já não saiba percorrer nenhum deles, nenhum dos caminhos já conhecidos? Com o tempo, fui expulsa dos mapas que eu havia feito da minha mente, dos meus desejos, das minhas conquistas, e já não posso situar-me; mostrei-lhe o caminho, e agora ele é livre para percorrê-lo, o caminho de tudo que aprendemos juntos, para que ele siga como autodidata, dominando todos os espaços, sob a luz de todos os refletores, armadura reluzente. E eu não ataco. Eu abaixo a guarda, dou as costas, mas sempre olhando para trás, com curiosidade incontentável. E o vício da expressão me degrada por minuto. Quero entender o que não se quer explicar, quero fazer parte do que me expulsa violentamente. Tenho dedicação e apreço profundos pela doença que me devora. Síndrome de Estocolmo. Fecho as cortinas daquele jeito estranho, deixando aberta a janela, e sinto a brisa adentrar-se, contagiando o ar moribundo do aposento; deixo-a percorrer a consciência, confrontar meu comportamento, e já não me atenho a sentir mais nada; sei do corpo que habito, sei da mente que me significa, sei do sonho e da realidade, e já não posso suportar nenhuma esfera lógica, nenhum argumento, nenhuma comunicabilidade, nenhuma palavra; paro de escrever a partir do já.

Nenhum comentário:

Postar um comentário