Acordo só. O sonho me mata. A
casa é vazia. Silêncio. E o desespero só não é maior do que se houvesse alguma
companhia. Porque ele não vai voltar. Ninguém para assistir-me enquanto eu
copiosamente vivo, pedindo assim esmola à vida. Vida, dai-me uma graça. Eu mato
o dia. Sou a dama da noite. Faço-me boba, faço-me leve. Faço-me mais silenciosa
ainda. O que dizer, que já não se tenha dito? Quando eu digo, sou desdita,
desditosa! Minhas palavras se tornam desdéns. Recolho-me. Prendo-me aos últimos
segundos desse meu reino noturno, o ar de promessa e de completo desolamento,
abraçados, confundidos, indistinguíveis. Súbito, o canto de pássaros me rompe o
isolamento acústico de existir. É a pincelada rosa no horizonte, é a entrega
vestida de desistência. Estou desistida. Um conjunto meio desconexo de pequenos
atos compulsivo-impulsivos, uma fuga estéril para longe de tudo, como se eu
corresse obstinada em uma esteira ergométrica de arrependimento e vacilação.
Mas se o destino é nunca chegar a nada, apenas me distanciar do tudo? O tudo,
que é a vida dele atingindo os lugares mais elevados, e a mesma platéia que o
aplaude é aquela que desdenha de mim, meu rumo modesto e reservado direto às
sombras da luz que ele exala. Mudo uma cadeira de lugar. Troco os livros de
ordem na estante. Desfaço-me de pilhas de roupas. Fecho as cortinas de um jeito estranho. Alterno
o lado de dormir na cama. Abandono um artista, descubro outro. Arrisco-me em novas comidas. Tento uma rota alternativa para o destino de sempre. Humildemente
tento espalhar alguma mudança pelos fragmentos da minha existência. Humildemente
peço à vida uma graça, uma licença, um intervalo outro, um estado de espírito
qualquer, qualquer espaço, qualquer som, um ar e cheiro que me arranhem a
garganta, a dor que me penetre, qualquer luz que me queime as retinas, qualquer
poema que me seja outra instância, outra vivência, persona, identidade, pois que ele me
foi a composição de pessoa, pois que cresci com ele, mudei com ele, mudei por
ele, tenho-o entranhado em todos os meus caminhos anteriores; então como
explicar que eu já não saiba percorrer nenhum deles, nenhum dos caminhos já
conhecidos? Com o tempo, fui expulsa dos mapas que eu havia feito da minha
mente, dos meus desejos, das minhas conquistas, e já não posso situar-me;
mostrei-lhe o caminho, e agora ele é livre para percorrê-lo, o caminho de tudo
que aprendemos juntos, para que ele siga como autodidata, dominando todos os
espaços, sob a luz de todos os refletores, armadura reluzente. E eu não ataco.
Eu abaixo a guarda, dou as costas, mas sempre olhando para trás, com
curiosidade incontentável. E o vício da expressão me degrada por minuto. Quero
entender o que não se quer explicar, quero fazer parte do que me expulsa
violentamente. Tenho dedicação e apreço profundos pela doença que me devora. Síndrome
de Estocolmo. Fecho as cortinas daquele jeito estranho, deixando aberta a
janela, e sinto a brisa adentrar-se, contagiando o ar moribundo do aposento; deixo-a percorrer a consciência, confrontar meu comportamento, e já não me atenho a sentir mais
nada; sei do corpo que habito, sei da mente que me significa, sei do sonho e da
realidade, e já não posso suportar nenhuma esfera lógica, nenhum argumento, nenhuma
comunicabilidade, nenhuma palavra; paro de escrever a partir do já.
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