sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Não mais que de repente

Que olhar é esse na distância, que me perscruta sem que o veja? Que ânsia é esta por encontrar perdido no caminho um rastro desse olhar que não alcanço? Que calma é esta, que rebuliço debaixo d’água, que céu azul, que sol me queima sem que me exalte? Que cantiga ouço, murmurada em outro nível, sob o travesseiro e o ar pesado, que não me pesa e pelo contrário, leva-me vento, nuvem que afaga estrelas, que ouve da lua, que não a precisa ver, sentindo-a ainda, que embalo é este? Que estranho mundo vem a receber-me, colhe-me do sonho e faz-me aérea, vendo-me bem nas coisas todas que vêm fincadas da terra? Que raiz briófita, que acácia velha, que formiga em meu cabelo, que ipê branco rosa amarelo? Que grito é este que me atiram sem que o ouça, que eu devolvo bem com silêncio confiante, que estranhíssima confiança é esta, que me traça os passos sem cálculo ou tédio? Que leveza é esta, que nem se lembra do que perde, que já não lambe da pele as feridas, não vê breu, só cor vibrante? Que neutralidade feliz, que ânimo sutil, que olhar suavemente alucinado estampa a minha face cicatrizada? Que sono que foge, que fome que some, que ansiedade exilada de me dar me faz repouso plácido e inteiro? Que páginas estas, que me carregam nelas e fazem festa, que significados brotados e colhidos, que escuro tolhido, que dureza clareada, que alma se me abre pelas frestas fazendo-me toda luz e brandura? Que cama é esta que se me encaixa e enforma, faz-me onda, submersa num instante abstrato de encontro sonhado e indizível, imensidade de idéias que se não me tiram? Que gesto recebo nas mãos, graça de detalhe, que me faz benévola complacência e cumprimenta sem mágoa o meu passado, num sussurro acordado para o segredo do tempo presente? Que olhos me lêem, fazem-me análise, bondade e alento, no oculto deslumbramento de um jeito de me dar um pouco que faz muito? Que palavras estas, que me jorram prontas, sem que eu me retorça, ensejando a calmaria e não mais a ressaca? Que poder é este de à lembrança abrir-lhe os olhos, já sem tê-los escorrendo em sangue bruto, que mansidão? Que simples conjunto de palavras a fazer-me comoção!

"E o que quer que você tenha que fazer para ser assim, faça. Julgamento nenhum vale isso." (H.M.)

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