Conhecer
E por vezes me pergunto o que há
em mim e que te sustenta. Você, que conhece tantos lugares e pessoas e que
decidiu fazer uma parada na mesma estação que eu, pequena, ignorante aos fatos
e lugares. Você de multidões, tão alto e maior, enquanto eu em meu canto fico
absorta em introspecção, sem saber de nada. Eu, que nunca vi metade do que você
viu, conheci de ti, medos e segredos, confissões entrecortadas por suspiros e
úmidas de lágrimas que nunca chegaram a tomar forma. E então vejo onde estamos
em sintonia; não quando faço o que você faz, mas quando sinto o que sente,
quando através de minhas palavras e de minhas mãos te ofereço conforto, algo
que você desconhecia. Encontramo-nos então do mesmo tamanho, apesar de não
saber do que você sabe – conheci o que até então lhe era desconhecido, pois
agora sei de ti.
Hoje
Devia ter acordado ao menos 4
horas antes para poder fazer tudo o que me foi designado e também algumas
coisas que me agradariam. A gente aprende a gostar do desagradável, talvez seja
isso o que chamam de amadurecimento. Para ser capaz de acordar mais cedo, teria
que ter conseguido dormir ao menos 2 horas antes. Teria que acreditar nas
minhas finalidades. Mas nada era final, havia sempre o instante seguinte.
Liguei a tevê no noticiário, mas não informavam nada que pudesse dar-me
acalento. Sentia frio, segurava a caneca de chocolate com as duas mãos,
sentindo o vapor subir por minha face e embaçar-me os óculos. Só queria saber
de você. Queria projetar-me em outra vida, mas isso me era impossível: o sofá
preto continuaria ali, o tapete empoeirado, os quadros abstratos em tons de
marrom e azul que não deviam significar nada, fundamentalmente, mas pareciam
espelhar minha angústia. Toda a gente era insossa, parecia que não tinham aprendido
a sofrer. Não conseguia mais comunicar-me com eles, pois meu único canal
recentemente era a miséria que cultivara, que se multiplicava, que fincava
raízes. Toda a gente era insossa, e eu era uma coitada. Ela me liga porque quer
compartilhar felicidade, eu só deixo o telefone vibrar incessantemente em minha
mesa e ignoro. A felicidade tornara-se algo tão obsceno e esdrúxulo, não
entendia como as pessoas conseguiam regozijar-se com algo tão efêmero e
traiçoeiro.
Como arranjar uma arma? Munição,
estou cheia delas, mas não tenho como atirar. Muitas coisas gostaria de dizer,
mas não me é permitido, não passam pelo crivo do que é sensato. Fico engasgada,
no meio do caminho. Não pareço impressionável, mas sou, justamente por esperar
o nada. Quando ganho uma migalha, é como se fosse um quilate de diamante.
?
Devo sofrer em silêncio.
Calar-me-ei objetivando que calem-se também as vozes da loucura em minha mente,
para que sejam sufocadas as frustrações, para que eu não mais projete em outros
minhas necessidades. Mas, faz favor, desassossegue-se em mim. Desague, desabe,
desabafe, desfaça, desconstrua, desdiga. Sou pequena, falha e retorcida, pois
que cheia de dores. Sinto-me ameixa seca e, ainda, sou o paradoxo do cavalo
indomável que urge ser domado. Domestique-me então, pacifique. Clamas para que
eu não me feche? O que farei a não ser recolher-me em meus aposentos onde a
escuridão carcome, após encontrar todas suas portas fechadas? Cansei-me de
chamar-te em vão, de bater em portas que nunca se abrem. Ah, hei de buscar o ar
fresco, valorizar como nunca antes um adeus. E a deus, aos deuses, quiçá ao
Universo, entrego minha causa e minha sorte, porquanto as considero perdidas;
não há mais de mim que possa dar além do que ofereci, encontro-me num estágio
de fonte esgotada, alma seca, enrugada e vazia. Por isso nada mais cabe a mim,
nem eu mesma me caibo, não há espaço nessa clausura absoluta. Não há luz, não
há razão. Há apenas o medo, a escuridão e o silêncio. Posso enfim ouvir minha
própria respiração dolorida, fruto dos esforços de um peito carregado em
demasia.
Menininha
Mas a gente mal se conhece, era o
que ela diria, sorrindo sem graça, cética, indiferente. Ia se esquivando de tal
maneira das perguntas, dos sentimentos. Sabia que as pessoas você ia conhecendo
aos poucos, até o dia em que sentia que as conhecia, então depois viria o dia
em que perceberia que nunca as conhecera. O desejo da completude novamente
entrava em conflito com a certeza de que ninguém era confiável, mas a solidão
era tão, tão insuportável! As pessoas ao redor sorriam, abraçavam, tentavam se
aproximar. Ela se sentia sufocada. Ao chegar em casa, contudo, seu coração
denunciava a possibilidade de implodir.
A gente mal se conhece, mas eu
até gosto de você. Seu sorriso me acalma, sua voz me acalenta – seu abraço não
é apenas um substantivo, é um lugar. Com você por perto, todo o resto se
desvanece – dentre preocupações e medos –, ficava calma e em paz.
Não sei se te conheço, mas
dependia dele de maneiras que desconhecia.
Você não me conhece, eu nunca te
conheci, mas não queria ter que viver sem você.
Victoria Junqueira
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