segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Minha escritora favorita

Conhecer
E por vezes me pergunto o que há em mim e que te sustenta. Você, que conhece tantos lugares e pessoas e que decidiu fazer uma parada na mesma estação que eu, pequena, ignorante aos fatos e lugares. Você de multidões, tão alto e maior, enquanto eu em meu canto fico absorta em introspecção, sem saber de nada. Eu, que nunca vi metade do que você viu, conheci de ti, medos e segredos, confissões entrecortadas por suspiros e úmidas de lágrimas que nunca chegaram a tomar forma. E então vejo onde estamos em sintonia; não quando faço o que você faz, mas quando sinto o que sente, quando através de minhas palavras e de minhas mãos te ofereço conforto, algo que você desconhecia. Encontramo-nos então do mesmo tamanho, apesar de não saber do que você sabe  conheci o que até então lhe era desconhecido, pois agora sei de ti.

Hoje
Devia ter acordado ao menos 4 horas antes para poder fazer tudo o que me foi designado e também algumas coisas que me agradariam. A gente aprende a gostar do desagradável, talvez seja isso o que chamam de amadurecimento. Para ser capaz de acordar mais cedo, teria que ter conseguido dormir ao menos 2 horas antes. Teria que acreditar nas minhas finalidades. Mas nada era final, havia sempre o instante seguinte. Liguei a tevê no noticiário, mas não informavam nada que pudesse dar-me acalento. Sentia frio, segurava a caneca de chocolate com as duas mãos, sentindo o vapor subir por minha face e embaçar-me os óculos. Só queria saber de você. Queria projetar-me em outra vida, mas isso me era impossível: o sofá preto continuaria ali, o tapete empoeirado, os quadros abstratos em tons de marrom e azul que não deviam significar nada, fundamentalmente, mas pareciam espelhar minha angústia. Toda a gente era insossa, parecia que não tinham aprendido a sofrer. Não conseguia mais comunicar-me com eles, pois meu único canal recentemente era a miséria que cultivara, que se multiplicava, que fincava raízes. Toda a gente era insossa, e eu era uma coitada. Ela me liga porque quer compartilhar felicidade, eu só deixo o telefone vibrar incessantemente em minha mesa e ignoro. A felicidade tornara-se algo tão obsceno e esdrúxulo, não entendia como as pessoas conseguiam regozijar-se com algo tão efêmero e traiçoeiro.
Como arranjar uma arma? Munição, estou cheia delas, mas não tenho como atirar. Muitas coisas gostaria de dizer, mas não me é permitido, não passam pelo crivo do que é sensato. Fico engasgada, no meio do caminho. Não pareço impressionável, mas sou, justamente por esperar o nada. Quando ganho uma migalha, é como se fosse um quilate de diamante.

?
Devo sofrer em silêncio. Calar-me-ei objetivando que calem-se também as vozes da loucura em minha mente, para que sejam sufocadas as frustrações, para que eu não mais projete em outros minhas necessidades. Mas, faz favor, desassossegue-se em mim. Desague, desabe, desabafe, desfaça, desconstrua, desdiga. Sou pequena, falha e retorcida, pois que cheia de dores. Sinto-me ameixa seca e, ainda, sou o paradoxo do cavalo indomável que urge ser domado. Domestique-me então, pacifique. Clamas para que eu não me feche? O que farei a não ser recolher-me em meus aposentos onde a escuridão carcome, após encontrar todas suas portas fechadas? Cansei-me de chamar-te em vão, de bater em portas que nunca se abrem. Ah, hei de buscar o ar fresco, valorizar como nunca antes um adeus. E a deus, aos deuses, quiçá ao Universo, entrego minha causa e minha sorte, porquanto as considero perdidas; não há mais de mim que possa dar além do que ofereci, encontro-me num estágio de fonte esgotada, alma seca, enrugada e vazia. Por isso nada mais cabe a mim, nem eu mesma me caibo, não há espaço nessa clausura absoluta. Não há luz, não há razão. Há apenas o medo, a escuridão e o silêncio. Posso enfim ouvir minha própria respiração dolorida, fruto dos esforços de um peito carregado em demasia.

Menininha
Mas a gente mal se conhece, era o que ela diria, sorrindo sem graça, cética, indiferente. Ia se esquivando de tal maneira das perguntas, dos sentimentos. Sabia que as pessoas você ia conhecendo aos poucos, até o dia em que sentia que as conhecia, então depois viria o dia em que perceberia que nunca as conhecera. O desejo da completude novamente entrava em conflito com a certeza de que ninguém era confiável, mas a solidão era tão, tão insuportável! As pessoas ao redor sorriam, abraçavam, tentavam se aproximar. Ela se sentia sufocada. Ao chegar em casa, contudo, seu coração denunciava a possibilidade de implodir.
A gente mal se conhece, mas eu até gosto de você. Seu sorriso me acalma, sua voz me acalenta  seu abraço não é apenas um substantivo, é um lugar. Com você por perto, todo o resto se desvanece  dentre preocupações e medos , ficava calma e em paz.
Não sei se te conheço, mas dependia dele de maneiras que desconhecia.
Você não me conhece, eu nunca te conheci, mas não queria ter que viver sem você.

Victoria Junqueira

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