quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Química

Esqueci-me por um segundo de que já não posso dirigir-te a palavra. Um, dois, três, quatro segundos que me valham. De puro sonho, negação, nostalgia, psicose. Estava absorta em qualquer um desses, mergulhada dos pés à cabeça, sincera, entregue, suscetível, hermética. Pensei: irei chamar-te, discar o único número conhecido, aguardar ansiosamente, ouvir teu timbre através da magia tecnológica, e logo estarás imerso também em minha mente, uma epifania. Irei chamar-te para um café e uma fatia de bolo de chocolate, tão singelo e tão nosso, e caminharmos de mãos dadas pela loja de discos. Banal e glorioso. Entraríamos no carro, o teu, é claro, e eu te ouviria ralhar com a minha indecisão sobre a música que ouviríamos. Não importa, meu amor. Qualquer música seria a tua morada. Moras ainda em todas elas, todas que tenhas sequer visitado. E eu quereria mostrar-te a minha nova música favorita, só para me aborrecer com os teus comentários de músico inveterado, tão teu que és. E, bem dentro, inundar-me-ia de orgulho. Passearia com as mãos por tuas pernas, seria a tua maior distração, e contaria os pêlos do teu rosto, em crescimento, um por um, e tentaria alcançar a tua orelha, um movimento arriscado, e ainda o mais seguro de todos os meus atos. Pediria para que ficasses, e tu pedirias para que eu fosse contigo, e discutiríamos, e sairíamos os dois de cara fechada, amando demais para que pudéssemos compreender. A despedida seria curta e intolerável, e eu correria à minha janela, apenas para ver-te disparar com o som bem alto exibindo-me uma música tão minha, mas tão minha, que eu não poderia jamais te deixar escapar da minha vista. Volta, vai, deixe-me olhar o teu rosto de menino, meu homem. Tens a formação perfeita do meu sonho, humilde e inocente. Meu sonho habita cada poro das tuas bochechas de sol, teu nariz de batata. O hálito preciso, a saliva. Tua química, a única que fala à minha. Minha consolação. Um, dois, três, quatro segundos que me valham. E volto a mim. Escuto o som de mil vozes que não são a tua. Percorro milhões de metros que não me conduzem a ti. Destilo meu tempo, vejo-o dançar sobre meu cadáver embalsamado e faço até graça da minha maldição. Morte sem descanso. Corpo que segue, ávido por alívio. Estou só, estou só. Encontro-me comigo, passeio com as mãos por mim. E és tu quem me habita. Alívio, alívio, alívio. Como tu, tantas vezes antes, clamando por alívio com o pensamento em mim. E eu te habitei! Sinto-te por dentro e fora, por todos os lados, o quente e o frio e o úmido e o seco e o rígido e o frouxo e o doce e o amargo e o peso e a leveza e o ódio e o amor e o descaso e o desejo. Alívio, por favor! Eu grito, eu clamo, alívio! Retorço, solitária, mas totalmente imersa, afundada, embebida na idéia tua! Sofro, quero sofrer, quero que doa, quero que me invada! Prendo a respiração. Não há ar que me liberte do teu cativeiro. Um, dois, três, quatro segundos. Um, dois, três, quatro segundos. Um, dois, três, quatro segundos. Um, dois, três, quatro segundos. Um, dois, três, quatro segundos. Um, dois, três, quatro... Um, dois, três, quatro... Fôlego? Alento? Um, dois, três, quatro, um!, dois!, três!, quatro!, um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, um... dois... ... ... CO2

Êxtase.

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