As minhas histórias não têm personagem porque de fato não acontecem. São sensações destiladas. Nem eu chego a protagonizar. Parece que não falo do concreto porque não falo mesmo. Embora as sensações sejam o que há de mais concreto para mim. Vivo de furtos, pequenas violações que me fazem. O que sobra de viver é o que escrevo, as migalhas deixadas que eu colho adoravelmente do chão para alimentar meus sentimentos. Sou escritora sem enredo. Sou vida sem aventura. Escrevo em grande e genuína distração. Perdão, eu sou comum, e muito suscetível. Nunca fingi ser o que não fosse. Mas já não persigo julgamentos. Ninguém me conhece mais. Eu só queria humildemente ser aceita. Já nem tenho coragem de pedir nada a ninguém. Para ser bem sincera, ter amado já me basta. Eu sei que amei, e sendo poeta, vivo, porque não morri. Eu não sou ela e nunca poderia ser. Mas as sensações causadas por ela são já parte íntima do meu universo de emoções e palavras. Vivo em função das escolhas e loucuras dos outros. Que estranha voragem de não me ser, sendo. Que hiperacuidade das sensações de ser rejeitada. Agora sim. Atropelo quem me lê. Porque escrevo para mim.
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