segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A supressão da instabilidade da consciência

Como ensejar as condições propícias à fluência da consciência? Quero viver as coisas sendo, só sendo, sem que eu me debata com elas. O estado em que se é, o estado em que se deixa de ser, o estado em que se tem certeza de não ser. Que forma dar à consciência, em que molde estável despejá-la? Como suprimir a instabilidade da consciência, sem suprimir a consciência em si? Porque a minha instabilidade é ser atingida. E a consciência é tudo. Estou plenamente consciente do que me atinge. Mas me escapa ser capaz de distinguir vontade de necessidade. Eu quero isto? Eu preciso disto? O que isso fará por mim? Uma calculadora de consequências? Uma problematizadora? Viver o já, sem previsões ou medições. Não quero medir a altura do tombo. Nem passar agosto esperando setembro. Não quero viver à espera; o viver é já, e se morre, morre-se por minuto, vive-se por minuto o peso inefável de não estar vivendo. Uma insustentável leveza de não ter nada que de fato te prenda. Nada me prende, nada me tem, então tudo que me cativa me tem inteira em um minuto. Sou de tudo, espalho-me em todos os instantes, pertenço a cada minuto de existência como se todo o meu ser se contivesse ali, como que totalmente consciente – em quieto desespero – da morte a espreitar no próximo.  Mas se não acaba? Por isso mesmo me choco: espero que eu viva este instante em tanta intensidade que me exaura a existência, e eu não venha a conhecer o seguinte. Vem-me o próximo instante-já, e ele é todo novo e todo eu, e é tudo que tenho, até o outro minuto. Dê-me alguma forma fixa, qualquer coisa que dure, qualquer coisa que não acabe, porque já me assusta continuar sentindo em mim a percuciência aguda dos instantes passados. Ninguém vive os minutos como eu; começo a pensar mesmo que pareço mover-me contra a maré da lógica humana. Porque em mim as coisas duram como se habitasse um outro plano, um irreal; meu subconsciente me encanta e apavora, domina-me e expulsa-me dos meus próprios julgamentos e racionalidades. Sou o estopim da minha emoção. Os instantes me cativam e o presente se estende para todos os lados da minha percepção, submergindo passado e futuro. Sou o é. O que foi me tem inteira ainda, porque eu ainda estou sendo. Toca-me, fica-me, faz-me, é-me. O que será também me tem inteira, porque o meu ser-presente se expande e oblitera a idéia do ainda-não, e eu me antecipo; já vou medindo bem o que nem se chega. Parece uma espécie de ansiedade inamovível. Porque ainda que eu me pense tranquilizada sei que é uma tranquilidade de tranquilizante. Como explicar? Acertam-me em cheio com alguma substância. Não é matéria: é emoção pura, ainda que só eu a sinta inteira. Pois pego essa emocionalidade e construo um éter, uma neblina, uma escada de ar que é a sublimação para fora do meu abafado-escuro. Saio dele, estou no mundo, porque alguém me trouxe e eu quis ser trazida. Sou facilmente levada: a incógnita é a motivação dos outros em levar-me. Mas essa placidez que faço dos outros é algo de fugaz que me comove. Algo que eu tento preservar para futuras necessidades solitárias. O tempo ruge, a vida é dura, e a minha consciência antecipa a inquietude do minuto-que-vem. Mas a vida é linda! A vida é tão linda, que eu tenho medo de não saber vivê-la. Quero ser levada por alguém que saiba. O grande assusta, e eu preciso do convencimento diário de que não sou pequena. Talvez, por isso, sempre na vida eu me tenha debatido por estabilidade. O que é que dura? Porque se tudo dura, nada dura, e sou sempre eu vivendo o tempo insignificado e construindo pontes entre os múltiplos sentidos que me dão os outros e as coisas. As coisas? Eu. Consigo vislumbrar uma auto-suficiência. Consigo vislumbrar um ego puro. Consigo vislumbrar um sentido da existência. Vislumbrar, apenas. Mas sou a comoção inteira. Ensimesmo-me de forma quase sisífica. Meu problema não é a dissolução do ego, mas a construção. Cadê meu ego? Cadê a tranquilidade natural de consciência, que me fizesse ver exata a linha tênue entre vontade e necessidade? Quero, preciso! Erro! Quero o errado na hora certa e o certo na hora errada e preciso do errado na hora errada e do certo na hora certa: e isso tudo me parece no pós-instante um conjunto de palavras totalmente dessignificado e perdido na dessincronia do instante-já-infinito de me ser. Como é que as pessoas são? Como é que se faz para dar a forma, a forma que propicie a manifestação da vida? Suprimir tudo aquilo que não traga o aumento da vida. Um conceito tão simples, e um assombro tão poderoso de não saber captá-lo. A distinção entre suprimir e reprimir. Suprimir é dar a forma, as condições de ser, ser o melhor de si. Reprimir é matar, eliminar a consciência. Mas já não vejo, se é que jamais houvesse visto, a fonte da minha inquietação primeira. Meu corpo físico, minha emoção, minha mente? Já nem ouso falar em intuição. Tenho uma intuição forte de simplicidade, que é por ir vendo tudo, e saber as coisas simples. Mas começo a pensar que talvez eu veja demais. Talvez não seja para tudo ser tão visto. O mundo não é de quem vê, mas de quem vive. E a intuição linear é não pensar. Vejo pensando. Penso vendo. Sou todos os instantes. Assusto-me! E quero o fluxo. O equilíbrio das coisas que perduram. A constância. E não quero querer alimentar o meu desejo. Quero o desprendimento. Quero sentir os acontecimentos tocando-me as mãos com leveza, feito água corrente, e passando, e seguindo, e deixando-me em paz. Quero ser livre. Quero não querer ser já o sempre, mas o agora (?). Quero um apoio? Será que só assim explico a minha falta? Falta de um apoio? Não: quero um apoio, mas preciso sustentar-me. Pois sustento-me. Mas oscilante! E a consciência não pára, não flui, não me faz prosperar. Existo um dia de cada vez e me orgulho de estar viva. É pouco? É muito pouco. Orgulho-me! Mas não me contento. "Já basta. O mundo exige pequenas frases. Não auto-reflexividade maluca e sinceridades absurdas." Não falo nunca. Quando meu verbo escapa, sei que falo demais.

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